Thalita Monte Santo
Por Thalita Monte Santo
É jornalista e integra a redação da  Revista FHOX. thalita@fhox.com.br

Precisamos falar sobre o assédio na fotografia

Perfis no Instagram denunciam assédio cometido por fotógrafos e trazem prints de mensagens e conversas enviadas para as vítimas

por Revista FHOX Publicado há 5 meses atrás | por Thalita Monte Santo

Em menos de uma semana, dois perfis no Instagram foram criados para denunciar o assédio sexual no meio da fotografia. Modelos e mulheres envolvidas com ensaios fotográficos, principalmente os de nu artístico, relatam casos de abusos cometidos por profissionais reconhecidos no segmento.

São eles o @julianocoelhodenuncia, que até o fechamento deste artigo já ultrapassava 10 mil seguidores, e o @fotografosabusadores, com mais de 1.500 seguidores e descrições de assédios cometidos por pelo menos 16 fotógrafos. Ambos os perfis trazem prints de mensagens e conversas enviadas para as vítimas como provas.

Precisamos falar sobre o assédio na fotografia
Arte: Eduardo Cilto

O caso Juliano Coelho estourou nas redes na última semana após a criação do perfil de relatos. O fotógrafo se posicionou em suas redes sociais, deletou as contas e deixou um comunicado em seu site. Leia mais em: Quando a fotografia vira caso de polícia.

Mas as denúncias de assédios cometidos por fotógrafos no ambiente de trabalho não são recentes. Em 2017, a modelo americana Cameron Rusell lançou uma campanha em seu perfil do instagram intitulada  #MyJobDoesNotIncludeAbuse (meu trabalho não inclui abuso) e em apenas cinco dias divulgou mais de 80 histórias de assédio, que incluíam até mesmo estupros.

Já no início deste ano, o jornal “Boston Globe” expôs mais de duas dezenas de profissionais da indústria da moda envolvidos com abuso, incluindo o fotógrafo brasileiro André Passos, o francês Patrick Demarchelier e o americano Greg Kadel, que trabalhou para Victoria’s Secret e Vogue.

Os comportamentos denunciados iam de toques impróprios a agressões. Segundo o jornal, os fotógrafos negaram as acusações. No entanto, o império editorial Condé Nast, que inclui também a revista “Vogue”, informou que parou de trabalhar com Demarchelier e Kadel.

Precisamos falar sobre o assédio na fotografia
Foto: Marina_Ph (via IStock)

Em 2016, o diretor israelense-americano Sigal Avin e o diretor e ator David Schwimmer se juntaram para criar uma campanha contra o assédio sexual. Em uma série intitulada #ThatsHarassment, com 6 vídeos, eles representam casos que realmente aconteceram.

Um dos episódios é o The Photographer. Não há nudez nas imagens, mas há uma simulação de constrangimento durante uma sessão de fotos. Em entrevista ao site Cosmopolitan, Avin disse que ao ver que algo está errado é mais fácil para alguém dar um passo adiante.

Estima-se que a maioria dos profissionais que trabalham com ensaios femininos, no Brasil e no mundo, sejam homens. E neste universo, limites no tratamento aceitável e não aceitável entre modelos e fotógrafos nunca foi bem estabelecido. Essa falta de limitação, em alguns casos, somada a falta de profissionalismo e segundas intenções, já fez (e faz) alguns profissionais passarem além desta linha tênue no ambiente de trabalho.

Fearful rape victim, man holding her arm, black background

Muitas vezes, coagida, a vítima não sabe como agir, sente medo e se cala. Outras pensam que pode ser apenas um exagero achar que o fotógrafo esteja ultrapassando os limites. Vale ressaltar que abuso e assédio não são somente sexuais, mas também psicológico e verbal. E é por isso que precisamos falar sobre o assédio na fotografia.