Por que o mercado para os fotógrafos está tão difícil?

Uma abordagem mercadológica usando as 5 forças de Porter pode ajudar a entender esse momento complicado que se acentuou com a pandemia

por Revista FHOX Publicado há 1 mês atrás | por Leo Saldanha

Lembro de quando estava estudando na ESPM e tive contato com uma série de ferramentas de de gestão. Uma que me lembro bem é do mestre da administração e economia Michael Porter. Professor da Harvard Business School e autor do livro best-seller Estratégia Competitiva. Na verdade ele escreveu inúmeros livros sobre o assunto. Um dos clássicos ensinamentos dele é sobre as 5 Forças Competitivas de mercado. Valem para qualquer negócio e não seria diferente na fotografia. No livro ele explica: 

Pois bem, na fotografia em todos os seus inúmeros setores essas mesmas forças se aplicam. Mas hoje vou discorrer sobre a fotografia profissional. Os fotógrafos sentem na pele já tem alguns anos a aceleração da competição. O tempo de mercado dos entrantes que desistem (a durabilidade deles no ramo) caiu de 24 para 18 meses. Muitas vezes até menos do que isso. Esse é o ponto dos novos entrantes da natureza competitiva desse mercado. Barreiras de entrada para virar fotógrafos já eram baixas uns 10 anos atrás. Agora então, menos ainda. Nesse item de Porter isso representa uma coisa só: Diminuição da rentabilidade para os agentes desse mercado. Fotógrafos sabem disso muito bem: o preço só tem caído e provavelmente vai cair ainda mais. 

Na parte dos poder dos fornecedores não é diferente. Elas sofrem consequências desse momento como alta do dólar e outros pontos relevantes que incorrem em mais custos e a necessidade de “cobrar mais pelo serviço prestado”. Aqui entram fabricantes de equipamentos, de quem imprime e outros serviços prestados aos fotógrafos. Curiosamente vimos uma corrida de guerra de preços nos últimos anos por parte sobretudo de encadernadoras. De novo, a queda na rentabilidade aparece na mesma medida tanto para os fornecedores quanto para os próprios fotógrafos. 

woman wearing white sweater carrying a daughter

Compradores. Vamos incluir aqui as pessoas comuns. As famílias, mães, mulheres e por aí vai. Com larga oferta em um mercado sem barreiras de entradas para fotógrafos o preço é pressionado mais uma vez. Obviamente o poder de barganha se apresenta como desafio. O reflexo disso nós vemos nas piadinhas de memes com a cliente que foi conversar com o marido e nunca voltou (ou vice-versa). Tem tanta opção de fotógrafo que ela pode fazer um leilão e sair caçando o fotógrafo mais barato que puder atender. Aliás, no Get Ninjas ela consegue vários orçamentos tudo online e faz a escolha com base no preço. O poder de barganha aqui é forte. A pressão nesse momento de pandemia é ainda maior. Curioso notar que pela avaliação de Porter essa força de barganha representa queda na qualidade de produtos e serviços desse mercado afetado. isso não lembra alguma coisa? 

person using smartphone with Instagram logo screengrab bokeh photography

Produtos substitutos. Esses não faltam. muitas vezes afetam nosso mercado de forma indireta. Quando uma turma de formatura decide viajar e não fazer uma festa isso representa não ter aquelas fotografias. Talvez a troca seja por um serviço similar. No resort os jovens serão servidos por uma equipe de fotografia que atende por lá. Pior será se o substituto for o smartphone dos colegas e as redes sociais. E acredite, isso ocorre em eventos sociais e em outras frentes. Gente que acha que não precisa de fotógrafo porque vai poder usar as fotos dos amigos na nuvem. Obviamente a qualidade não existe mas o estrago já foi feito. Nem preciso dizer que a oferta de produtos substitutos para a fotografia profissional é bem ampla não é mesmo?

 

A gente comentou dos entrantes mas não podemos esquecer dos que já estão no mercado. Fotógrafos entram e baixam preço e pressionam os intermediários que se defendem com estratégias de preço e que impactam os colegas no topo do mercado. A dinâmica aqui é sensível e crítica pois será ditada pelas outras forças. É crucial ter um certo equilíbrio da dinâmica competitiva. Ultimamente com o cenário das coisas do jeito que estão isso ficou bem difícil.

De qualquer forma, o olhar aqui das 5 Forças de Porter serve para confirmar aquilo que quem atua no ramo já sabe muito bem. Os desafios são grandes e não existem fórmulas prontas e receitinhas de sucesso. Aliás, menos ainda agora que tudo o que funcionava antes talvez não sirva para um consumo que muda com a pandemia e com todas as restrições que estamos observando. Partindo do próprio autor e sua alternativa o caminho para sobreviver e alinhar a estratégia deve ser:

Liderança no custo, diferenciação e enfoque. Das três a que me parece acertada na fotografia profissional está mais na diferenciação. E é ela que pede o marketing. Obviamente não é simples e nem fácil. claro que o fotógrafo como empreendedor deve buscar o melhor custo possível mas não se trata de um trabalho em escala. Já o enfoque serve como uma combinação pontual das duas outras ações (liderar no custo e se diferenciar). Noto nesse momento (10/07) que os fotógrafos que estão conseguindo se sobressair ou ganhar mercado ou se diferenciar ou só mesmo sobreviver estão atuando na diferenciação. Dentro do olhar de Porter como vemos no quadro acima os elementos fundamentais envolvem marketing, produto, força da marca e criatividade. Eu colocaria outros três itens relevantes em tempos de pandemia: colaboração, empatia e autonomia. Ou seja, ouvir os clientes, criar com eles e para eles e dar espaço para que eles se destaquem. O que fica claro é que na nova fase da fotografia pós-covid surge uma constatação inegável e até irônica. A de que sem marketing os fotógrafos que entram e os que já estão no mercado não vão conseguir continuar. Marquei aqui na minha agenda para avaliar esse cenário daqui um ano. Assunto para o meu próximo livro que vai tratar da transformação da fotografia como negócio e do marketing diante da pandemia. Então se você não concorda daqui um ano a gente compara nossas visões. 

Leo Saldanha é autor do livro Marketing Básico para Fotógrafos. Primeiro livro do Brasil sobre o assunto. Publicação lançada em junho passado e que aborda a importância do marketing na fotografia profissional.