Felipe Tazzo
Por Felipe Tazzo
Felipe Tazzo é profissional de marketing, produtor executivo consultor de carreira artística desde 2005, e ainda escritor e segundo fotógrafo de Denise Maher. 

Por que ninguém dá valor à fotografia como arte?

Por que será que vender um quadro, publicar um livro ou até mesmo encher uma exposição é tão difícil?

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Felipe Tazzo

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Será que é porque fotografia ainda é uma grande novidade? A primeira imagem foi fixada por Joseph Niépce em 1793 e ninguém deu bola para o cara e aquele borrão preto que ele insistia em dizer ser o futuro. 224 anos é muito tempo? Dada a história da humanidade e o tempo de vida de outras artes, como a música, parece que foi ontem. E quando a fotografia deixou de ser alguns borrões indefinidos e enfiou o bedelho entre os pintores, ninguém gostou muito. Boudelaire, famoso crítico de arte, a chamava de um processo mecânico sem alma que serviria como um serviçal das ciências e das artes. É, o homem era  meio rabugento com as novidades…

Então dá para argumentar que a fotografia artística sofre porque é uma grande novidade? Logicamente que não. O cinema, por exemplo, é ainda mais novo.

De Niépce para cá rolou uma revolução atrás da outra, uma popularização assustadora e a cada ano tirar uma foto se torna ainda mais banal acessível. Hoje qualquer criança com um iphone tira fotos insandecidamente e PRECISA mostrar essas fotos para todos os seus amigos.

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Então por que é tão difícil convencer essa criança, ou qualquer outra pessoa a comprar um quadro, um livro ou ir a uma exposição? Podiam pelo menos compartilhar nossas fotos, afinal um simples cliquezinho custa um total de meio segundo e zero calorias!

Mas não, nem isso.

Ninguém dá valor à arte fotográfica pelos mesmos motivos pelos quais hoje ninguém dá valor ao teatro (uma manifestação beeeeeem mais antiga) ou à pintura (mais antiga ainda). Ou à música, ou à dança ou a qualquer outra que você consiga imaginar.

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A arte perdeu seus papéis fundamentais para a sociedade. A música já foi veículo de comunicação. Teatro já foi a interpretação dos mitos. Ilustrações já foram publicidade. E todas as artes, durante muito tempo, foram a única opção de entretenimento e informação disponível para a sociedade. Ficamos encantados com os clássicos, mas a gente esquece que em suas épocas, os clássicos eram o lançamento do ano.

Sim, Mozart já foi o Elvis Presley e Elvis Presley já foi a Anitta.

E até fim do século passado, até ali pela década de 80, arte era onde as novidades aconteciam. A pessoa não precisava ser uma ardorosa fã das artes, mas se quisesse ter contato com o mundo, precisava mesmo sair de casa. A arte era a mídia e uma das pouca opções de lazer.

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E então, de uma hora para outra os anos 90 nos deram 200 canais de televisão e logo em seguida, acesso ilimitado a todas as manifestações do ser humano através da internet. Por que alguém sairia de casa para ver uma exposição de fotos se pode ser bombardeado por imagens incríveis dos melhores fotógrafos do mundo deitado em sua própria cama?

Apocalíptico, não é?

Calma, não corte os pulsos. A arte se comunica com coisas muito íntimas e muito preciosas das pessoas de tal maneira que nem elas sabiam o que era. As pessoas tem dentro de si sentimentos que não conseguem exprimir de qualquer forma e os artistas bem sucedidos são aqueles que se comunicam com essas sensações. É claro, quando eu digo bem sucedido, não quero dizer necessariamente bom. Quero dizer relevante para um determinado grupo de pessoas.

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Romero Britto (argh!) faz um grande sucesso porque se comunica com algo que seu público alvo já tem dentro de si e quando olham para seus “quadros”, conseguem identificar e se sentirem envolvidas.

Pessoas não gostam da arte por causa do artista ou por causa da obra, mas sim por causa de si mesmas.

Quantas músicas não são especialmente significativas para você ou marcaram uma época da sua vida? Essas músicas falam sobre você e você sentiu isso, mesmo sem ter percebido. E aquilo é tão seu que você está até disposto a pagar por esse contato. Seus ídolos não falam deles próprios. Seus ídolos falam de você.

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O fenômeno razoavelmente recente do batidão carioca (que eu NÃO VOU chamar de funk) e que se espalhou por todo Brasil faz muito sentido para um segmento marginal enorme da sociedade. Aquela batida fala sobre eles, sobre os desejos e os anseios deles. E os fãs sentem que aquela música #merepresenta.

Exemplos não faltam: o hiphop fala sobre a vida de uma galera. O techno também. O graffitti idem. Os slams (encontros de poesia nas ruas), os saraus, a mobgrafia, os livros de fantasia adolescentes, etc, etc.

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Todos esses exemplos falam altruisticamente mais sobre as pessoas, sobre os cidadãos comuns e suas rotinas do que sobre o ego do artista. Assim a arte vira um esforço colaborativo para uma voz ser ouvida no meio de um tsunami de informações. O artista e seu público dividirem o peso das mesmas decisões, dúvidas e anseios.

Ao fim e ao cabo, o público não vai dar mesmo nenhum valor à arte. Não enquanto o artista não der valor ao público. Converse com o público, divida suas dores, entenda seus sonhos e seja a voz que representa uma geração.