Pequenos grandes projetos

Liliane Giordano e Sabrina Didoné abordam a importância de se criar (e renovar) um projeto fotográfico. Você tem um ano inteiro para pensar e desenvolver uma nova ideia

por Revista FHOX Publicado há 4 meses atrás | por Sala de Fotografia

Pode ser um pouco clichê, mas a virada de ano sempre nos motiva a querer fazer coisas novas neste período. Pensar em pequenos grandes projetos pode ser uma excelente alternativa para fazer algo diferente neste ano: nada pretensioso demais que acabe ficando no fundo de uma gaveta devido a sua dificuldade, mas do tamanho exato para fazer a diferença.

Dá pra pensar simplesmente em organizar um novo processo da sua fotografia neste ano. Afinal, não dá mais pra fazer o igual, ou a cópia do vizinho. É preciso criar novas possibilidades, arquitetar projetos com criatividade, se reiventar. Neste processo, muito se aprende: se buscam referências, entender e estudar sobre cores, sobre tendências, o próprio mercado, administração, que possam agregar valor aos serviços e produtos da área da fotografia.

A partir destas referências, busca-se argumentos. Um projeto pode explicar o porque da sua fotografia. Pode mostrar que o seu jeito é único, e que você não apenas faz fotos da mesma forma que todo mundo faz. Por meio desse projeto, é mais fácil mostrar o seu motivo para o cliente, que explique seu objetivo, que tenha uma justificativa, e um propósito. Que crie argumentos que explique para seu cliente o seu trabalho, seu diferencial em imagem e conteúdo.

Dentro desses pequenos grandes projetos, o fotógrafo se apropria de sua responsabilidade como criador, ao propôr novas possibilidades de narrativas e poses, não necessariamente fazendo a mesma sequência de fotos de sempre e/ou do que está na moda. E nisso o processo criativo é que faz a diferença. A experiência do fotógrafo importa muito na criação, pois pode proporcionar resultados interessantes. O fotógrafo pode tornar-se ainda o proponente de mudanças na educação visual do cliente – assim, ele não apenas se submete aquilo que o cliente gosta, sendo ele mesmo um agente de criação de novas narrativas fotográficas. Já dizia Paulo Freire que: “educar é impregnar de sentido cada ato cotidiano”.

O fotógrafo tem o privilégio de estar em muitos locais restritos em atividades de protocolo. Desta forma, pode propôr uma interlocução com seus retratados com imagens fotográficas que vão além do tradicional e convencional. O importante é aprofundar seu conhecimento específico para desenvolver argumentos críticos.  

Fotografar é um processo que envolve planejar, criar um repertório – para entender os elementos da linguagem. Compreende também um recorte que estabelece uma ligação entre o contexto e o nosso modo de ver e entender o mundo. Significa executar, avaliar, reinventar, buscar intenções, estabelecer novos diálogos com a imagem e com o cliente. Desta forma, estabelece uma relação de respeito das diferentes vivências e culturas cotidianas, valorizando a arte ao olhar com atenção, e ressignificando para impregnar de sentido a experiência da imagem fotográfica.

Estamos no momento de desafiar o olhar, questionar,  para atuar de forma crítica, ética e comprometida. Às vezes, é até mesmo preciso desconstruir o próprio olhar, para poder perceber de forma diferente e com novos significados.  

A ideia de um pequeno grande projeto é sistematizar o saber de um fotógrafo, para transformar em algo novo, elaborado e criativo, mas sobretudo consistente. Sempre com a consciência de fazer não mais só para vender, realizar não só para o resultado, pois às vezes o aprendizado é o melhor no percurso dessa experiência.

Também é válido lembrar que pode-se conhecer não para competir. Um fotógrafo pode unir-se a outros para construir um projeto maior, ampliar seu conhecimento em outras áreas, outras linguagens. Afinal, um projeto vai além do pessoal. Pode-se buscar parceiros, projetos de lei de incentivo, extrapolando a lógica comercial, e adentrando já no campo das artes.

Para começar um projeto, pode-se conceber um plano de ação a ser executado em um tempo determinado, o que vai permitir a sua realização. Depois, pode-se seguir os seguintes passos.

Elaboração do projeto – estrutura básica

  1. Introdução
  2. Objetivos
  3. Métodos
  4. Orçamento
  5. Fontes de financiamento ou plano de financiamento (se necessário)
  6. Equipe e/ou coletivo de criação
  7. Cronograma de execução
  8. Referências visuais e bibliográficas

 

Um exemplo de projeto pode ser visto a partir de fotos de plantas suculentas, cujo texto explica argumentos e conexões entre as fotografias, que originaram então um projeto de exposição fotográfica.

Veja o texto de justificativa: “A exposição fotográfica Salientes, de Liliane Giordano, traz um olhar de integração e convergência entre a natureza, o corpo humano e as relações pessoais. A interligação e interação que compõem as fotografias se assemelham às células humanas e a comunicação em rede entre as pessoas. Hoje, tudo é externo. E estamos em um momento em que as pessoas estão vivendo mais internamente. Elas têm menos relações com o mundo. E essa é a analogia que as fotografias fazem: dos espinhos, de algo rude, indelicado, surge uma flor, uma cor, uma inspiração. Nessa exposição, há uma busca para transmitir a sensação de toque. Na foto, através do olhar, explorar e mostrar outros sentidos.”

A partir de qualquer fotografia, pode-se dar o início de um projeto. Basta ter uma sequência de imagens, no qual se tenha um contexto para dar sentido, ou um propósito para uso de determinada técnica fotográfica. Cabe lembrar que um projeto não é uma forma de engessar a fotografia, pelo contrário: ele deve conferir liberdade e criatividade às imagens. Afinal, como ensina o fotógrafo da Agência Magnum Sergio Larrain “uma boa imagem é criada por um estado de graça. E a graça se manifesta quando se vê liberta das convenções, livre como uma criança em suas primeiras descobertas do mundo. A brincadeira é, então, organizar o retângulo”.

Liliane Giordano e Sabrina Didoné, fotógrafa e mestre em educação e jornalista, “um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – quer dizer – conversaram muito sobre a Sala de Fotografia, onde viriam a desenvolver muitos projetos juntas. Além de produzir muito conteúdo sobre o universo da fotografia, também vivem o mundo sobre o qual escrevem, inseridas nos processos fotográficos e de educação visual. Afinal, acompanham na escola de fotografia o desenvolvimento de alunos e de profissionais desde sua iniciação fotográfica aos mais avançados projetos de livros e exposições. Juntas, unem a trajetória acadêmica e poética de Liliane, com a dinâmica da escrita de Sabrina.