Preço: ele só deve cair na fotografia. E o que você pode fazer sobre isso?

por Revista FHOX Publicado há 9 meses atrás | por Leo Saldanha

No Livro Free (2009), o futuro dos preços, Chris Anderson foi taxativo (e visionário). “Tudo o que é digital tende ao valor zero”. De fato, vemos isso por toda a parte no que envolve o ambiente virtual. Nunca foi tão barato assinar um serviço de música ou tevê via internet. Assinaturas de revistas digitais e jornais saindo por poucos reais ao mês. A fotografia não escapa disso, fotógrafos geram arquivos digitais. O cliente afoito pede só uma fotinha no dia seguinte para poder postar nas redes sociais. Quando recebe os likes e compartilhamentos enchem a família de felicidade e orgulho. Passada a euforia, tudo volta à estaca zero. Pouco tempo depois o cliente começa a ficar ansioso para receber as provas. Sorte será se ele tiver pedido um álbum ou algum produto impresso. A decisão de não ter algo físico envolve só uma questão: preço. Em tempos de crise e competição ferrenha, o cliente pergunta quanto é? Quando chega o orçamento não demora para voltar à questão: e sem o álbum? Fotógrafos que não davam essa opção sem álbum optaram por passar a vender apenas fotos digitais. “A coisa está preta e não posso perder esse faturamento”. Na outra ponta, encadernadoras e laboratórios sentem a pressão na queda dos pedidos. Na melhor das hipóteses, o cliente pediu álbum mais em conta. “Será que você teria um álbum mais barato do que esse?”. O ciclo de destruição de valor é acelerado.


No livro Inevitável – Inevitável: As 12 Forças Tecnológicas que Mudarão o Nosso Mundo, de Kevin Kelly, o assunto da queda de preço para quase tudo é abordado de forma precisa: em geral, com o tempo, a tecnologia tende à gratuidade, que isso, por sua vez, tende à abundância. De início, pode ser difícil crer que a tecnologia caminha para a gratuidade, mas isso se aplica a maioria dos casos. Quando uma tecnologia persiste por um bom tempo, seus custos começam a se aproximar do zero (porém, sem jamais atingi-lo). Não está longe o dia em que qualquer função tecnológica específica vai nos parecer praticamente gratuita. Essa tendência parece se aplicar tanto para itens básicos, como alimentos e matérias-primas (commodities) e também para produtos mais complexos (como eletrodomésticos) quanto para serviços e bens intangíveis. Um artigo publicado pelo Fundo Monetário Internacional em 2002 indicou que o preço das commodities apresenta tendência de queda de 1% ao ano nos últimos 140 anos. Não estamos só falando de chips de computador e equipamentos de alta tecnologia. Praticamente tudo o que fazemos em todos os setores, tendem à mesma direção econômica, ficando cada vez mais barato ao longo dos dias.

arte segfy

De tudo isso podemos resumir duas coisas: nosso mercado é totalmente dependente da tecnologia e vendemos um serviço. Kelly afirma que os custos de tudo isso caem com o tempo por unidade fixa. E vem caindo ao longo da história, especialmente desde a Revolução Industrial. O autor então fala de uma nova onda da era da plenitude barata e ele pergunta: O que de fato tem valor? É aqui que entra o jargão da vez entre dez de dez especialistas em marketing, empreendedores de palco, gurus e afins. A tal da venda da experiência. Ou como o próprio autor expõe no livro: As únicas coisas cujo custo aumenta enquanto todo o resto aproxima-se do zero são as experiências humanas.

Foto: disguise one

Embora possa parecer lugar comum:  a confirmação de que valor supera preço é uma constatação. Quando fui a um show do U2 no ano passado vi isso pessoalmente. Um ingresso que custa uma fortuna e que assim como outros shows parece ficar cada vez mais caro. O estádio do Morumbi estava lotado e a banda irlandesa nos vendeu uma belíssima experiência. A começar pelo telão “Instagram ready” as músicas clássicas do álbum Joshua Tree e os hits que todos amam. Muita gente de fora de São Paulo estava ao nosso redor (ganhei o ingresso de presente da minha namorada, esposa e parceira). Fiquei impressionado o quanto as pessoas estavam preocupadas em mostrar que estavam ali com suas selfies e afins. No fim, entendi que o status daquela experiência tinha que ser compartilhado. O exemplo do show é uma forma de entender a venda de experiências. Uma viagem para a Disney, uma sessão Netflix em uma sabadão ou a ida a uma museu como o MIS SP se transformaram em experiências. Cada uma com seu valor adaptado para a situação. Eu tenho tevê grátis aberta ou posso pagar 30 reais por mês para assistir quantas séries eu quiser. Com a vantagem de ela indicar conteúdo que tenha o meu gosto. Ano passado fui ao Cirque du Soleil, um presente dos meus sogros para a minha família. Foi incrível, mais uma vez uma experiência. Circos não são cases de inovação. O formato se desgastou no tempo e eles entraram em um processo de queda de público. Foi um artista canadense que reformulou a experiência do circo e assim surgiu o cirque du Soleil. Hoje um fenômeno mundial que se renova o tempo todo e ganha muito dinheiro com venda de produtos, músicas e outros itens. O ingresso é caríssimo.

A “copigrafia” segue como uma trista tendência

No livro Inevitável o autor diz que o preço médio do ingresso para um show de música subiu 400% entre 1982 e 2012. Ele destacou ainda outros mercados em franco crescimento: personal trainer, cuidadores de idosos e babás e o mercado de festas de casamento. Nessa parte fiquei intrigado. Pois vemos reclamações generalizadas aqui e lá fora quanto ao acirramento da concorrência e consequente queda nos preços dos fotógrafos. Se fosse só em casamento…newborn, família, batizado, aniversário e outros. O que justifica a queda nos preços e fotógrafos vendendo trabalhos sem impressão para poder cobrar pouco? O termo Copigrafia não deveria ser estranho em nosso mercado. Um copiógrafo tem um equipamento de copiar. Ele vai fazer um serviço de cobertura de cópias que gera arquivos que serão entregues aos consumidores finais. Por ser um copiógrafo, ele não está preocupado com estilo ou referências. Até porque ele copia algo que viu por aí na internet, em um desses cursos-online com cabeças falantes ou uma matéria de um especialista (como eu). A copiografia é arte da cópia. Nela vemos trabalhos que se repetem e entrega de um serviço sem diferenciação nenhuma. A grande vantagem para quem compra é que como tudo é igual será o preço o fator decisivo na escolha.

Peter Lindbergh

O curioso é que os grandes nomes da fotografia nem vendem mais experiências. Os mestres até venderam em algum momento. Mas hoje, eles vendem uma assinatura única e de certa forma isso também é uma experiência marcante. Nossa, estou sendo fotografado por esse grande artista. Normalmente esses grandes nomes são reconhecidos pelas fotos sem a necessidade de marca d´água ou assinatura na imagem. “Nossa essa foto é do tão famoso de tal do clique”.
No meu entendimento depois de olhar para esse mercado tantos anos ficou claro algumas coisas. Importante destacar que os números que eu apresento são de uma estimativa minha sem uma base detalhada e concreta. Ou seja, é mais um instinto.

Heart broken photography

Dos fotógrafos em atuação no Brasil (casamento, newborn, família) temos a seguinte pirâmide.

A elite:
• – 20% dos profissionais estão na elite. Os que cobram mais e são reconhecidos no mercado e desejados por consumidores e colegas para cursos e afins.
• Desses 10% são ainda mais sofisticados cobrando valores bem acima de todos. Estar nessa posição é boa e ruim. A pressão vem logo abaixo dos outros 10% que querem chegar nesse mesmo patamar. Conversando com alguns fotógrafos muitos me disseram que a elite da elite representa 1% aqui. Aqueles que cobram uma fortuna para fotografar. Você conhece muita gente assim?

A média:
• Aqui estão os 50% que representam a maior parte dos fotógrafos que atuam no setor. Seria simples se fosse todo mundo igual aqui. Nem ouso estratificar essa base que envolve a maior parte dos profissionais. O preço varia muito e gera uma pressão interna muito grande nessa própria faixa. Os mais caros aqui geram pressão nos 10% da parte de baixo da elite. Com a crise e o efeito da queda generalizada de preços nos serviços, a média sofre uma guerra interna e por isso desanda todo um mercado. O cenário aqui é complexo, mas a melhor forma de entender esse ambiente nesse momento é um grande mar vermelho (sangrento) do impacto da guerra de preço, da crise, dos entrantes, etc. É necessário dizer que migrações entre as três partes da pirâmide ocorrem. Gente que está na média pode subir para o topo (lá aumenta a pressão) e os que estão na parte de baixo aqui dessa faixa saem do mercado ou mudam de segmento. É por isso que vemos muitos fotógrafos de casamento indo para formatura, família e outros tipos de fotografia. E nada de errado com isso. Essa faixa é a mais desconfortável do mercado atualmente. Em conversas com quem conhece e entende do mercado muitos discordam que essa faixa tenha 50% do mercado. Que na verdade é no máximo 50% ou 40%. Na verdade pode até ser 70% do ramo hoje.

Os entrantes:
• A parte que cobra menos é dos entrantes. Algo que representa 30% dos fotógrafos que vão se renovando. Aqui não tem saída. Ou você entra na média do mercado (ou evolui) ou você sai do mercado. Simples assim. (por sinal o tempo de “vida” do entrante na fotografia caiu muito. Antes durava 24 meses, depois caiu para 18 e agora está 12 meses). No desespero de se manter e de ganhar clientes, o entrante cobra muito pouco. E ele nem sabe quanto cobrar, quanto custa e como melhorar. Ele precisa de ajuda. O entrante vai para a internet e vê uma série de conteúdos de como melhorar, cobrar mais, etc. Muitas vezes não consegue se adequar e essas indicações não ajudam muito. Por quê? Porque a solução que deu certo para alguém experiência não necessariamente dará certo para quem começa. Você não repassa vivências, mas pode inspirar pelo exemplo. A verdade é que a resolução do problema do entrante, de quem está já faz algum tempo ou mesmo das referências segue por uma mesma trilha. A resposta é muito específica caso a caso. E isso é que torna tudo tão difícil. Basta lembrarmos que o trabalho do fotógrafo na essência é muito solo. Para encontrar a resposta para seus problemas e poder cobrar mais e viver melhor você terá que encontrar uma solução para o seu caso. Nesse ponto, estudar, investir em conhecimento segue sendo fundamental. Aliás, isso é algo que o livro Inevitável aborda também: se você não gosta de estudar, pode se preparar para sair do mercado. A atualização daqui para frente vai se tornar ainda mais importante. O desafio contudo é que as receitinhas de bolo, as regras clássicas e os cases de sucesso do passado talvez não sejam a resposta para os seus problemas.

Ao final é importante esclarecer. Existe espaço para preço baixo, preço médio e preço alto. Há espaço para venda de experiência ou para copiar o que deu certo e fazer mais do mesmo. Cada decisão leva a um resultado. A velha causa e consequência. Grandes negócios (inclusive de fotografia) cresceram muito cobrando pouco e vendendo no volume. Outro ponto a ser lembrado: todo mundo começa do zero. Sem base de clientes, sem experiência e com muita vontade de crescer. O que é que eu faço? É a pergunta que os persegue. Alguém começa cobrando pouco ou fazendo de graça e estuda, e trabalha e cresce e chega em algum lugar. Esse roteiro não mudou. O que mudou foi o ambiente competitivo. É importante saber que viver da fotografia não é fácil, que dá trabalho e que você terá que estudar para sempre e estar preparado para fases boas e ruins. Tranquilidade não vive aqui. Nunca foi tão fácil ter acesso a conteúdo sobre fotografia. O que não significa que todos os conteúdos são bons e que servem para você. Nunca foi tão fácil comprar equipamento e começar na fotografia. Nunca foi tão difícil conseguir sobreviver fazendo o que todo mundo faz igual. Só tenha em mente que independente da fase que você está…a única certeza é de que os preços vão cair e que as mudanças no mercado fotográfico vão continuar acontecendo. Um choque de realidade é fundamental para que possamos nivelar as coisas por cima, não?

Hoje em dia conhecemos o preço de tudo e o valor de nada. Oscar Wilde

Sobre vendas de experiências separei alguns exemplos interessantes em matérias da FHOX:
Os exemplos que vem da África
Café e fotografia. Uma combinação especial
– Toda fotografia tem un preço, toda fotografia tem um valor
– Seja uma vaca roxa
Wonder Photo Shop é destaque na mídia espanhola
Especialista em mindfulness e fotografia criativa, fotógrafo vende ensaios que são verdadeiras experiências
Um novo modelo de loja de foto nos Estados Unidos
Um nível superior na foto de formatura
A fotografia chinesa está bombando
O que a fotografia e o vinho tem em comum

 

>> FOTOGRAFAR 2018: O GRANDE ENCONTRO DA FOTOGRAFIA BRASILEIRA 

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