Felipe Tazzo
Por Felipe Tazzo
Felipe Tazzo é profissional de marketing, produtor executivo consultor de carreira artística desde 2005, e ainda escritor e segundo fotógrafo de Denise Maher. 

O quadro geral da lei do audiovisual

Uma visão abrangente de Felipe Tazzo sobre as questões da lei brasileira de investimento para obras cinematográficas e audiovisuais

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Felipe Tazzo

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No princípio era a pornochanchada. Aqueles distintos senhores e senhoras que hoje a gente vê na Globo, todos magrinhos, na maior safadeza. Depois veio a Xuxa e os Trapalhões. E só depois disso é que o cinema brasileiro realmente encontrou sua direção (e sua produção e sua fotografia e iluminação…)

O surgimento de Tropa de Elite, Carandiru, Se eu Fosse Você, Minha Mãe é uma Peça e todos os outros sucessos que conhecemos não é um coincidência e muito menos uma evolução natural da forma de fazer cinema. Foi o fruto de uma lei de incentivo somada a alguns outros fatores.

Se você tem mais de 30 anos de idade deve se lembrar de um Brasil completamente diferente do que é hoje. A inflação era avassaladora. Os preços subiam diariamente e não, isso não é uma força de expressão. Os supermercados remarcavam os preços de todos os produtos durante as suas compras.

Fora a alimentação, preços caóticos não eram tanto problema porque os produtos nos quais eles apareciam não eram grande coisa. Barreiras de impostos herdadas do nacionalismo torpe militar tornavam a tecnologia disponível no Brasil um fracasso. Com a desculpa de estimular a indústria nacional, os importados que chegavam por aqui que custavam troco na gringa aterrissavam por aqui valendo fortunas.

Não bastasse um moeda caótica e equipamentos do século passado, não havia internet (dãããr…) e a produção cultural do mundo nem pensava em passar por essas bandas.

Resultado: na década de 80 o cinema nacional tinha a mesma qualidade do whisky nacional. E, mano, whisky brazuca faz a catuaba parecer Neston.

O brasileiro sempre teve (e sempre terá) talento para ser o melhor em qualquer coisa. A publicidade nacional ganha rodos de prêmios pelo mundo. O Jiu-jitsu brasileiro é uma categoria em si nas artes marciais. Chefs fazem um sucesso descomunal. Mas algumas condições podem enterrar lindamente bons talentos. Foi o caso do cinema. Não tinha para onde fugir.

E de repente, nos anos 90, as estrelas (as do céu, não as das telas) se alinharam, ventos sopraram a favor e os deuses da arte resolveram sorrir para o Brasil.

No ano de 1990, ainda nos primeiros meses de seu governo, o presidente Fernando Collor (hoje senador) declarou que o carro que o brasileiro possuía era uma carroça (e era mesmo!) e derrubou as barreiras alfandegárias deste e mais diversos produtos, entre eles os eletrônicos. Pronto, tínhamos equipo de qualidade.

Em 1991 a Lei Rouanet foi criada para permitir que empresas patrocinassem projetos artísticos de diversas áreas.

Em 1993 a Lei do Áudiovisual criou mecanismos ainda mais interessantes para a produção cinematográfica, prevendo lucros para os investidores dos projetos e coproduções com outros países.

Em 1994 o Plano Real foi efetivamente colocado em prática e não só a inflação zerou como o dólar valia menos do que os dinheiros brasileiros, em uma manobra de câmbio artificial.

E, finalmente, em 1995, a internet começou a disseminar-se no Brasil e a gente podia pelo saber da existência de outras formas de se pensar o cinema no mundo (assistir um trailer de filme pela internet, no entanto, era um sonho beeeeeem distante!)

E em 1995 proclamava-se a Retomada do Cinema Nacional, inaugurado pelo filme “Carlota Joaquina, Princesa do Brazil˜ (filmão!), da diretora Carla Camurati.

Daí para frente, eu queria dizer que foi só alegria, mas né, fazer cinema continua sendo um perrengue desgracento. Mas as produções aumentam e melhoram de qualidade ano a ano.

Pode-se dizer que sem a Lei do Áudiovisual (e em menor medida, a Lei Rouanet) não haveria cinema brasileiro. Porém, sem as condições certas, a lei de incentivo teria um efeito pífio, se tivesse.