O marketing anti-marketing de Banksy

Na última sexta (5), o artista sem rosto aprontou mais uma. Sua obra autodestrutiva foi ao mesmo tempo uma instalação de arte em tempo real e uma bela jogada de marketing

por Revista FHOX Publicado há 1 semana atrás | por Leo Saldanha

Você provavelmente viu a última obra de Banksy ser triturada logo após ser arrematada em um lance de 5 milhões de reais. O vídeo correu canais de tevê, redes sociais e os principais sites de notícia do mundo. Já virou meme. A obra da menina do balão já era um clássico. Uma das mais apreciadas pelos fãs e que muitas vezes era usada sem crédito. Mas como Banksy não tem nome…seja como for, o artista cria obras ácidas e sempre com recados políticos e sociais. Criou ainda um parque de diversões distópico (Dismaland) em 2015 lá no interior da Inglaterra. Foi um sucesso de público e mídia.  Em 2017 foi a vez de lançar um “hotel” na Cisjordânia com o grande diferencial de ter “a pior vista do mundo”.

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Going, going, gone…

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Banksy entrou para o seleto grupo dos autores reclusos. Aqueles que não mostram quem são e que preferem o anonimato. Normalmente isso ajuda a aumentar o interesse por esse tipo de criador. Eu que aprecio grafites e o lado contestador do artista sempre acompanhei as criações subversivas dele. Banksy é de origem britânica. Alguns dizem que é um dos integrantes do grupo Massive Attack e outros dizem que não. Esse lado misterioso ajuda a criar uma aura mais forte da marca Banksy. Querendo ou não, ele é um mestre do marketing. E podemos observar outros pontos importantes dessa dinâmica de criação, valorização e divulgação do artista.

– O que é escasso tem mais valor: Banksy é inacessível. E tudo que é assim, mais difícil de atingir, acaba valendo mais.

– Multimídia. Presente nas ruas e nas redes sociais. Com contas não oficiais e obras que embora estejam em grafites pelo mundo, acabam indo parar no Instagram das pessoas que esbarram com suas criações.

Obra de Banksy em NY

– Global e regional. Suas obras de rua não estão só no Reino Unido, mas também nos Estados Unidos e em Israel.

– Colaboratívo com a adesão de uma comunidade. Seus fãs compartilham suas obras e provavelmente colaboram até nas criações. Não dá para saber se Banksy é artista solo ou em grupo. Esse lado colaborativo é bem a cara dos tempos de hoje.

– Banksy tem assinatura. Quem vê seus grafites sabe que é Banksy. Pelos traços, pelo teor e a força da mensagem. Nem precisa de assinatura. Aliás, esse é o sonho de todo artista. Inclusive na fotografia.

– Marketing em tempo real. Não existe melhor case do que esse do estêncil no Sotheby’s de Londres descendo e sendo triturada e transmitida depois para as redes sociais. Viralizou rapidamente.

– Propósito. Aqui fica claro, arte que serve ao propósito do artista. Questionar o mundo da arte e fazer isso com uma obra que se autodestruiu. Aliás, a peça que restou vale certamente mais do que a original. Pois agora traz uma assinatura única de um ato praticamente inédito nesse ambiente de leilões.

– Híbrido. Ou seja, obras que ocorrem no mundo real, mas que aparecem com força no ambiente digital. Graças ao Instagram, Twitter e Facebook.

A bedroom in a new guesthouse shows artwork by Banksy in the West Bank city of Bethlehem on Friday. Mar. 3, 2017. The owner says he is putting the finishing touches to the “hotel with the worst view in the world.” The nine-room hotel named “The Walled Off Hotel” will officially open on Mar. 11. (Foto: Dusan Vranic)

Banksy é anticonsumo, mas vende assim mesmo. Lembro de ter visitado uma galeria em Nova York em 2015 e ver suas obras por lá. Ele vende livros e camisetas e afins. Esse lado pop está além da vontade do artista. Virou causa e mesmo que a obra recente que se triturou logo após o leilão não tenha tido a intenção acaba gerando ainda mais valor e mistério no legado de Banksy. Algo muito bem relatado pela BBC: “Parece que fomos Banksyficados”, disse Alex Branczik, diretor da área de arte contemporânea da Sotheby’s. A casa de leilão inglesa publicou um texto em seu site falando que o “inesperado incidente se tornou instantaneamente” um feito na história mundial da arte e que esta foi a primeira vez que um trabalho se autodestruiu automaticamente após ser leiloado.

Branding único. Como é uma causa e tem propósito, Banksy pode continuar existindo mesmo que não mostre a cara. Alguém pode continuar suas obras mesmo que os anos passem e o artista original deixe de existir. Assumir o manto seguindo o padrão dele não é impensável.

O triturador no fundo da tela. Um feito inédito no mundo da arte

Banksy comentou em um vídeo sobre o que ocorreu e define da melhor forma possível essa grande ação orquestrada de forma precisa. Que é ao mesmo tempo uma crítica e um belo case de marketing anti-marketing.

“Faz alguns anos que construí  de forma secreta um triturador de papel dentro de uma obra. Para ativar caso ela fosse a leilão”, diz no vídeo. E completou citando um gênio da arte no post “O ímpeto por destruir é também um ímpeto criativo. Pablo Picasso”.

Atualização: o site MyArtBroker que vende prints do Banksy disse que a obra já está estimada em 50% acima do valor original. Mesmo triturada, acabou valendo mais…

Última turma da Escola de Negócios FHOX em 2018

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