Por Iara Moribe
Iara Moribe faz parte do Conselho Editorial da Revista FHOX e trabalha nela há 25 anos, desde que era uma escola de fotografia. vidadefotografo@fhox.com.br

O furo internacional que quase derruba o ministro

Uma aventura narrada pelo fotógrafo e jornalista Gladstone Campos, 38 anos de profissão

por Revista FHOX Publicado há 3 anos atrás | por Iara Moribe

topo_gladstone“Era final dos anos 80. Eu trabalhava na sucursal da Veja, em BH. Lembro bem que era sexta-feira. A maior parte da revista já estava pronta, só aguardava alguma matéria quente para o miolo e fechar a edição. Chegaram à Redação um soldado e um tenente da Força Aérea querendo denunciar os abusos dos treinamentos na base de Lagoa Santa. Como estudei em colégio militar e quase segui na carreira sabia que os treinamentos eram assim mesmo. Já querendo me livrar dos caras, convidei-os a tomar um cafezinho e fui conduzindo ao elevador. Aí o soldado fala: ‘E aqueles iranianos lá, têm só privilégios, e nós…’

Daí, eu o corrigi: ‘Iranianos, não. Iraquianos, você quis dizer’. Afinal, na época, o Iraque de Saddam Hussein era grande parceiro comercial do Brasil e estava em guerra com o Irã. E ele insiste: ‘Não, são iranianos sim. Olha a moedinha que eles me deram’.

Tirei os caras do elevador e investiguei a história. Já ali mesmo pedi para que desenhassem um mapa da base aérea e me mostrassem como eu poderia entrar lá escondido e fotografar esses iranianos que estavam treinando nas aeronaves tucano. Na segunda-feira, quatro horas da manhã, estava lá eu em roupas escuras e a minha teleobjetiva camuflada, furando cerca, me arrastando pelo mato e fotografando os soldados iranianos na cabeceira da pista, iniciando a jornada. Os aviões e os soldados camuflados na cor bege areia de deserto. Fiz quatro filmes e mandei para São Paulo. Foi um furo internacional de reportagem. Ou seja, o Brasil oficialmente negociava com o Iraque, mas por baixo vendia aeronaves e treinava soldados e mecânicos do Irã. Chamou atenção do mundo todo. Houve pressão internacional e, por pouco, o presidente da Embraer, Ozílio Carlos da Silva e o Ministro da Aeronáutica não caíram.”

Esta aventura foi narrada pelo fotógrafo e jornalista Gladstone Campos, 38 anos de profissão. Gladstone tem inúmeras histórias na sua extensa e intensa carreira. Filho de militar, quase seguiu a carreira do pai. Foi no colégio militar onde aprendeu fotografia. Começou fotografando produtos em cromo para virar anúncio na tevê, passou por redação de jornal de esquerda na época da ditadura. Nas coberturas das manifestações apanhava dos dois lados. Trabalhou em jornal de economia, o Diário do Comércio de BH, ficou dois anos na Placar, atuou como frila na Veja, veio para São Paulo assumir editoria de fotografia de O Globo, fotografou para revista Gula, ajudou a criar a Caras no Brasil, com a amiga Nellie Solitrenick, onde ficou por dois anos como subeditor.

Há 12 anos é responsável pelas fotos de capa do Painel Executivo da revista Exame, de onde cultivou boas relações com as corporações e assessorias e que responde por 70% de seus trabalhos. Além de jornalista e fotógrafo, Gladstone é apreciador de vinhos e boa mesa. Participa ativamente em duas confrarias em Portugal. Em uma das viagens conheceu em Paris sua atual mulher, na fila da TAM no aeroporto Charles De Gaulle. Juntos fundaram o site Entre Pratos e Copos.