Por Nicolau Piratininga
É formado em Comunicação Social pela Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) e entusiasta da fotografia. Realizou diversos cursos de especialização em artes e em fotografia, além de atuar em projetos paralelos de registros fotográficos da cidade de São Paulo. Desde 2007 é gerente da divisão Conservart da empresa Molducenter, especializado em montagens de materiais Fine Art. Possui expertise em acondicionamento, conservação e restauro de acervos em papel. Em 2014 tornou-se o primeiro latino americano a obter o certificado Guild Commended Framer pela Fine Art Trade Guild na Inglaterra de emolduramento de obras de artes. nicolau@molducenter.com.br

O caderno de receitas da minha avó

Com muitas lembranças boas, sem dúvida meu paladar fala mais forte, e consigo sentir o gosto dos doces que minha vó fazia enquanto escrevo este texto.

por Revista FHOX Publicado há 3 semanas atrás | por Nicolau Piratininga

Minha mãe sempre me contou das adaptações que minha avó fazia na cozinha. Nascida em 1918 em Budapeste, vovó veio para o Brasil em 1956 com meu avô, minha tia e minha mãe. Tenho ótimas lembranças dela: sua máquina de costura, seus tapetes de arroiolo, que ela mesma bordava, a secretária eletrônica de casa com recados intermináveis em húngaro para minha mãe, que eram interrompidos pelo tempo limite da máquina, quando ela só queria saber se estava tudo bem.

Não tenho lembrança da imagem do caderno de receitas em si, mas consigo imaginar as anotações em húngaro que vovó fez e que minha mãe conseguiu transformar em um livro ótimo de receitas de doces húngaros, já com todas as medidas brasileiras, pois itens importantes como ovo, açúcar e farinha no Brasil são muito diferentes dos comercializados na Europa.

Aqui, a gema do ovo é maior, a farinha tem menos glúten e o açúcar adoça mais. Para alguns doces até a temperatura ambiente da cozinha influenciava no sucesso do preparo de certas receitas. Lembro da minha tia-avó Yaya, vedando as frestas das janelas e portas com pano de chão, trancada praticamente o dia inteiro na cozinha para, no fim da tarde, sair de lá com uma maravilhosa Aranygaluska.


Capa do livro da mamãe, Doces Húngaros, por Dorothea Piratininga. Editora DBA.

Mas o motivo desta introdução é justamente falar sobre adaptações ao mercado e clima brasileiro na preservação e montagem de fotografias. Basicamente seguimos recomendações e materiais da escola do hemisfério Norte, com informações de países com invernos mais rigorosos e de climas com temperaturas mais baixas. Infelizmente sentimos falta de publicações e experiências brasileiras publicadas.

É muito difícil encontrar dados sobre os efeitos da maresia em fotografias. Algumas capitais brasileiras, principalmente do Nordeste, sofrem muito com isso. O ar de Fortaleza, por exemplo, tem o segundo maior índice de sal do planeta.

O que talvez seja senso comum, independentemente do clima do país, mas que no nosso talvez seja uma tarefa mais complicada, é evitar variações de temperatura e umidade. O primeiro investimento a se fazer é comprar um termo higrômetro. Por menos de R$ 100,00 é possível adquirir um medidor e começar uma planilha de observação no local do seu acervo. Existem alguns equipamentos um pouco mais caros que já fazem a planilha para você. Se a sua apresentar picos altos tanto para cima como para baixo, é hora de investir na climatização do seu acervo.

Exemplo de termo higrômetro. Fonte site: Minipa

Agora, se você quer ir mais a fundo e levar mais a sério o seu patrimônio pessoal, histórico e cultural, deixo a indicação dos cadernos de preservação da Funarte do Centro de Conservação e Preservação Fotográfica (CCPF), que estão disponíveis para download no site deles (link aqui).

Flyer Oficina de Conservação e Preservação Fotográfica na FotoRio 2015. Fonte: CCPF da Funarte.

As fotografias aplicadas em acrílico ou o “metacrilato” são ainda um grande mistério de quais sãos as melhores práticas de preservação e proteção. No caderno 7 do CCPF esse assunto é um dos temas. O que acredito ser mais importante é lembrar que quando uma foto é colada em qualquer tipo de suporte é preciso passar a considerá-lo parte da fotografia também e pensar na sua preservação da mesma forma.

O cuidado com fotografias começa com pequenas atitudes e pode chegar em grandes processos, basta interesse, vontade e alguns investimentos.

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