O Brasil e o Oscar: o que falta para levarmos a estatueta dourada para casa?

Neste ano temos o documentário "Democracia em Vertigem", da diretora Petra Costa entre os cinco finalistas. Mas vale pensar sempre: cadê o Brasil na festa do Oscar de uma maneira geral?

por Revista FHOX Publicado há 2 meses atrás | por Raphael Bittencourt

Em meu artigo inaugural para FHOX, entre vários assuntos, falei sobre o Academy Awards,
provavelmente o festival de cinema mais famoso do mundo. Faltando agora poucos dias para a aclamada cerimônia do Oscar, na qual serão revelados os grandes vencedores, achei oportuna uma pergunta: cadê o Brasil nessa festa?

A essa altura já sabemos que nossa participação na edição de 2020 do festival é bastante tímida, mas viva! Essa é uma ótima notícia, pois geralmente nossa participação por lá, como país, é nula. Neste ano temos o documentário “Democracia em Vertigem”, da diretora Petra Costa, entre os cinco finalistas. Ele está disponível na Netflix. Fora isso, “Dois Papas”, dirigido pelo nosso ilustre Fernando Meireles, passou raspando, mas não entrou na lista final disputando “Melhor Filme”. Seu trabalho magistral se fez notar, entretanto, na indicação de Jonathan Pryce a “Melhor Ator” e Anthony Hopkins a “Melhor Ator Coadjuvante”.

“Democracia em Vertigem”, de Petra Costa.

É isso? Sim, é só isso. Basicamente o documentário é a única chance de cobrir de verde e amarelo uma daquelas cobiçadas estatuetas douradas. Existem, claro, diversos brasileiros nos créditos dos diferentes filmes americanos e internacionais concorrendo nas diferentes categorias. Nenhum brasileiro em posições que possam dar acesso à estatueta.

Dois Papas, dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles.

Por que? Falta de boas histórias não é. Falta de gente talentosa, também não. Obviamente não existe apenas uma razão que nos mantém tão longe do prêmio. Uma rede intrincada de fatores em diversos níveis e áreas cria o cenário perfeito para nos manter longe do topo das indicações.

Falta dinheiro? É certo que não. O Brasil, apesar dos pesares, se manteve razoavelmente estável como sétima economia do mundo por alguns anos. Depois caiu para a oitava e agora mais recentemente perdeu o posto para a Itália. Atualmente a economia verde e amarela é a nona do mundo. Comparativamente, nossos hermanos argentinos, tão ou mais afundados em crises econômicas, políticas e sociais do que nós, ocupam a 25ª posição.

E daí? E daí que com todos esses problemas, nossos vizinhos têm no portfólio nove estatuetas e 25 indicações. Olhando lá para cima, temos outros companheiros de América Latina – com a 13ª economia do mundo – os mexicanos. Eles têm na prateleira 27 estatuetas e foram indicados outras 64 vezes. O Brasil segue em último, com 22 indicações e nenhuma estatueta. Dinheiro, então, não é o que nos afasta do ouro e da glória da Academy.

Raphael Bittencourt e o sonho do Oscar.

Não tem como falar nesse assunto sem entrar um pouco em política, mesmo sem tomar partido. Por onde anda esse dinheiro que temos, mas não vemos? Quem sabe tenha a ver com os relatórios da ONU (Organização das Nações Unidas), que estimaram quanto andamos perdendo anualmente para a corrupção: mais de R$ 200 bilhões! Eu disse BILHÕES!

Essa cifra pode ser grosseiramente convertida em aproximadamente U$50 bilhões. Para efeito de
comparação, a produção americana de filmes em 2019 gerou U$ 11 bilhões. TV e streaming por aqui nos States geraram, com filmes e séries, U$ 91 bilhões. Isso foi quanto aquele mercado arrecadou, não o quanto investiu. O que será que conseguiríamos alcançar se, utopicamente, conseguíssemos investir aqueles nossos U$50 bilhões em cinema, séries e conteúdo audiovisual em geral? Não dá nem para imaginar os desdobramentos positivos em todos os setores da economia e na promoção do Brasil mundo afora. Na verdade a gente nem precisaria de todo ele. Dez porcento daquela cifra “evaporada” investida no audiovisual nacional já seria um empurrão e tanto.

Esse dinheiro não falta apenas nas produções em si, mas também lá no começo. Na formação de novos e mais bem preparados cineastas. O país precisa de mais escolas e cursos de cinema. Precisa não apenas de roteiristas, mas também de diretores, diretores de fotografa, produtores, gaffers, editores e todas as mãos e cabeças necessárias em uma produção. Precisa de mais executivos que realmente entendam não só o mercado nacional, mas também o internacional.

Nossos profissionais precisam falar inglês e saber como navegar em produções internacionais
compostas por gente do mundo todo. Não só os diretores ou cinematógrafos, mas também, nossos eletricistas, assistentes de produção e assistentes de câmera. No set de filmagem todo brasileiro precisa saber que lá fora um “tripé century” se chama
C-Stand. Que uma “cabeça de efeito” se chama “Gobo Head”No México, Alemanha ou Espanha pode apostar que eles sabem. Precisamos saber disso porque se quisermos aumentar nossa participação no cinema mundial, também precisamos estar dispostos a trazer gente de fora para o Brasil. Precisamos estar aptos a conversar na mesma língua e no mesmo nível.

Há muito tempo não podemos mais restringir e centralizar nossa produção e educação audiovisual e cultural no eixo Rio-São Paulo. Nossas dimensões continentais permitem e demandam melhor distribuição desse potencial. Nossa vasta diversidade cultural e as infinitas histórias a serem contadas exigem isso.

Falta-nos estratégia, e um rumo definido no cinema como parte importante da cultura. Falta aceitar e compreender que cinema bem feito e bem produzido não é despesa, é negócio, é gerador de divisas e riquezas. Mesmo aos trancos e barrancos, pasmem, a indústria audiovisual nacional já é maior do que a farmacêutica, do que a têxtil e do que a de produção de eletrônicos. Dados da própria ANCINE que, por sinal, parece não entender até hoje sua grande parcela de culpa no insucesso brasileiro no cinema internacional, particularmente no Academy Awards. Não adianta tentar empurrar goela abaixo de um público internacional histórias que mal funcionam localmente, no mercado doméstico. Nossos cineastas têm muitas histórias pra contar. Histórias para o mundo ver; temas universais, sem contudo perder o tempero brasileiro. Só que continuamos a mandar para fora as histórias erradas para nos representar nos festivais errados. Queremos atrair ou afastar os olhos do mundo?

Alguns anos atrás eu estava na sala de cinema da Academy, em Beverly Hills, na mesma sessão na qual estavam os membros da Academy encarregados de selecionar os filmes de língua estrangeira. O filme na tela era o representante oficial do Brasil no Academy Awards naquele ano. Tive a tristeza de ver 70% das pessoas se levantar e irem embora da sessão ainda no primeiro terço do filme, inconformados. Com aquela cara de “mas que coisa é essa?” Foi trágico! Os amigos aos quais eu acompanhava, figuras importantes na Academy, ao final da sessão me perguntaram ressabiados: O que você achou? Eu respondi: Não gostei. Ao que eles responderam aliviados por não precisar mentir por educação: Ufa! Nós também não! O que foi aquilo? Só não levantamos e fomos embora em respeito a você (no caso, eu), por ser brasileiro. Evidentemente a escolha brasileira foi completamente equivocada. Caiu na primeira peneira, como tantas outras vezes.

Em contrapartida, vejam o Fernando Meireles com “Dois Papas”. É uma produção de uma empresa americana. Foi escrita por um neo-zelandês. Fala da história de um argentino e um alemão. A narrativa se passa na Argentina e na Itália. Foi dirigida por um brasileiro. Adivinhem: o filme é sensacional e é impossível não perceber a mão de um brasileiro na obra. O Brasil fez o quê mesmo para ajudar a promover esse filme internacionalmente?

Alguma dúvida sobre nossa capacidade de contar para o mundo histórias relevantes sobre os mais diversos temas? Ou só sabemos exportar futebol, favela, carnaval e mulher pelada? Nada contra esses temas, afinal, o mesmo Meireles não emplacou 4 indicações ao Oscar com o sensacional “Cidade de Deus?”. Esses temas fazem parte da realidade do Brasil, mas não resumem o Brasil. Precisamos e podemos mostrar coisas novas. 

O que eu via aí de dentro e vejo ainda mais aqui de fora são iniciativas individuais de brasileiros no cinema tentando diversificar. Existe um ranço preguiçoso, conservador e até medíocre em certos escalões que barra a inovação. Uma ideia absurda de que o mercado audiovisual nacional é autossuficiente e não precisa se preocupar em exportar. O que dizer? O mercado americano, o alemão, o chinês e o coreano também são muito peculiares e únicos. A diferença é que eles exportam muito; nós, não. Não na medida em que poderíamos pelo menos.

Existem umas tantas panelas arrogantes que dizem: o mundo não sabe de nada; o mercado brasileiro é muito peculiar e dele nós é que entendemos. Será que entendemos mesmo? Eu acho nosso modelo de negócios, se é que temos um, inadequado. Consequentemente nosso modelo de produção torna-se insustentável também. Acho incentivos federais, estaduais e municipais, se bem administrados e fiscalizados, válidos. Quase todos os países produtores de cinema mundo afora têm incentivos, inclusive os Estados Unidos.

Os modelos de negócios e a forma de transferência desses fundos, porém, é completamente diferente. Mais importante: a maneira como são exigidas e fiscalizadas as contrapartidas é bem mais coerente e criteriosa também. Quem não entrega um produto final que atenda a diversos parâmetros de qualidade e adequação mercadológica arca com consequências sérias e precisa se explicar. Não é um dinheiro de fundo perdido como muita gente pensa erroneamente.

Cinema internacional, particularmente nos Estados Unidos, se faz pensando não só em
produzir cultura, mas também um produto. Tem necessariamente uma natureza ambígua: é arte e é negócio. 
Existem incentivos, mas muitos projetos saem do papel na raça, apenas provando por “A + B” que são bons negócios. Na verdade, mesmo quando existem os incentivos, ou principalmente quando eles existem, o projeto precisa ser comprovadamente um bom negócio. Quando digo isso, não me refiro só aos blockbusters como “Transformers”, “Avengers” e companhia; que estão mais para parque temático do que para filmes de “sair pensando”. Filmes mais densos e profundos como “Moonlight”, “Mudbound”, “Spotlight” ou “The Greenbook” também têm que se adaptar ao mesmo modelo de negócio e produção. Estes ou aqueles são igualmente filmes com propostas artísticas e comerciais diferentes, mas todos são filmes pensados como negócio necessariamente lucrativo.

Filme Spotlight.

É difícil entender. Temos a faca, o queijo e a goiabada na mão. O mundo tem a fome a e
vontade de comer algo diferente, que nós temos para oferecer. Eles estão famintos por novas histórias lá fora e dispostos a nos pagar em ouro.

Deu para vislumbrar um pouquinho do que vive afastando do Brasil aquelas estatuetas douradas?
Dinheiro e criatividade não são. Sobra o quê? Falta de vontade? Acaso ganhar dinheiro e louros por meio da arte é pecado?