Minha viagem à WPPI

Fotógrafa Carla Durante conta sua experiência ao ministrar uma aula de fotografia embaixo d'água na Wedding & Portrait Photography International 2019

por Revista FHOX Publicado há 6 meses atrás | por Carla Durante

Comecei a fotografar UNDERWATER PORTRAIT de forma despretensiosa e leve. Naquela época era apenas uma busca pessoal para o desenvolvimento de uma estética e linguagem para um projeto autoral. Em pouco tempo, como alguém que se apaixona e coloca toda sua energia e atenção no alvo da sua paixão, eu me vi envolvida e seduzida por esse tipo de fotografia.

Fazendo vista grossa às dificuldades inerentes ao estilo, com olhos voltados apenas para os encantos que a água produz, busquei técnicas através de estudos, experiências e certas invenções “à la Tabajara”.Tudo isso enquanto não conhecia algo melhor, para desenvolver os ensaios do meu jeito. Investi bastante tempo e dinheiro, mas confesso que valeu à pena e que me diverti muito nesse caminho.

Não foi fácil, mas na verdade foram exatamente os desafios que me impulsionaram a sempre tentar algo novo até atingir os resultados que imprimo nas minhas imagens subaquáticas. Foram as minhas fotografias, estampadas em redes sociais, que primeiro cruzaram divisas e depois fronteiras e me apresentaram para o mercado exterior. Creio que o reconhecimento é umas das grandes recompensas para um artista, e ter conquistado isso internacionalmente é algo que me deixa muito feliz e orgulhosa e me impulsiona a ir cada vez mais fundo na direção de criar projetos e buscar aprimoramento técnico para realiza-los.

Convite para WPPI

Quando no final do ano passado recebi o convite, através de JR deSouza (OUTEX® California) para palestrar na WPPI (Wedding & Portrait Photography International) eu mal pude acreditar! É um dos maiores e mais importantes congressos de fotografia que acontece anualmente nos EUA. São 5 dias de palestras, cursos e oficinas. Em paralelo, acontece uma grande feira de equipamentos, produtos e serviços ligados à fotografia, impressão e tudo que se relaciona à esse meio.

Me senti honrada e confesso quase que “zonza” com o convite, afinal fui a primeira brasileira a fazer parte do time de palestrantes do evento. Ter meu nome impresso no roll entre feras internacionais me deixou feliz e com mil borboletas no estômago. Mas eu estudei, me preparei para apresentar tudo em inglês e fiz questão de escolher produções que nos representassem. Assim, o verde e o amarelo de nossa bandeira tingiram de Brasil as águas de Vegas. Com figurinos lindos desenhados pelo estilista Arthur Caliman, Diana R Care, do time do nado sincronizado de Las Vegas vestiu amarelo e Nadine Brandl, artista do Cirque du Soleil (espetáculo Le rêve) vestiu verde.

As fadas d’água

Elas mergulharam com charme, graça, leveza e um fôlego que nunca vi antes. Posaram para as minhas lentes e para os alunos que se arriscaram a mergulhar comigo. Fizemos a sessão na parte rasa da piscina para que eu pudesse estar na borda e mostrasse detalhes das técnicas fotográficas para os alunos que preferiram olhar de fora, perplexos à tantos encantos.

No meu íntimo eu pensava: chegava a ser quase uma judiação, um desperdício, ficar na parte rasa uma vez que são raras as oportunidades de mergulhar com atletas que tem consciência corporal e habilidades aquáticas tão incríveis! Minha vontade naquele momento era ficar com elas por horas na parte funda da piscina, onde teríamos mais opções de movimentos e poses. Poderia criar imagens lúdicas extraordinárias que vinham em minha cabeça a cada gesto delicado que elas faziam.

Mas eu estava ali para transmitir meus conhecimentos e experiências. Até cometi o sacrilégio de pedir para as duas nadadoras fingirem serem humanas normais (afinal, elas são fadas da água) e guardarem o fôlego apenas por 5 ou 6 segundos. Isso para que eu pudesse demonstrar como são as clientes, principalmente se forem gestantes, e que mesmo nesse curto tempo conseguimos fazer fotos bonitas. Elas riram e bem que tentara mas dali a pouco já estávamos todos submersos novamente, presos à magia do que víamos embaixo da água.

Não fossem tantas raias desenhando limites no fundo da piscina, tudo estaria perfeito: água cristalina, temperatura ideal, diferentes profundidades para se trabalhar. Desde os preparativos eu sabia que a piscina coberta nos garantiria climatização ideal mas limitaria minha luz. Dessa forma levei meu equipamento extra de iluminação continua para usar embaixo da água. Posicionei as duas fontes, aproveitando ainda a luz interna que existia na parede da piscina para desenhar a iluminação que me agrada e faz parte da estética das minhas fotografias. Muitas vezes quando fotografo aqui no Brasil, em piscina aberta, a luz do sol e rebatedores bastam.

Um time de peso

Foi importantíssima a ajuda de uma colega de profissão, Simone Silvério. Alias colega é muito pouco para ela, é uma amiga mais do que querida. Fotógrafa de renome no Brasil, estava ali despida de qualquer pedestal e frescura e me ajudou de forma solicita, profissional e perfeita a segurar uma de nossas lanternas acompanhando os movimentos das modelos, fazendo o fill-light em seus rostos angelicais.

Simone fez com maestria a iluminação dos meus sonhos. Uma luz fixa na lateral e uma luz de preenchimento que perseguia a modelo em seus movimentos sem entrar no meu campo de visão. Parece que havíamos ensaiado nossa coreografia. Na verdade, tudo foi regido de forma espontânea em sincronia e conexão. Como dizem, o universo conspira à favor quando há sensibilidade, conexão e desejo. Foi mágico. O tempo passou voando!

Enquanto isso, do lado de fora estava Jaiel Prado com seu olhar atento, fazendo algumas imagens de making-off e se divertindo com o espetáculo. Contar com fotógrafos desse calibre, que se envolveram de forma completa, formando comigo uma equipe não tem preço! Mostramos no exterior que aqui no Brasil temos talento, conhecimento, técnica e união. Me senti orgulhosa e feliz em cada segundo que estive embaixo da água!

PARANAENDI

Minha alegria e entusiamo não eram só por mim, mas porque de certa forma estávamos lá representando todos nós, fotógrafos brasileiros. Vendo tudo o que vi (e tive vontade de comprar) na feira, os americanos estão anos-luz à nossa frente na questão de recursos, equipamentos e acesso à tudo isso à valores não tão exorbitantes para eles. Comparativamente com o nosso mercado, no qual pagamos taxas altíssimas de importação e impostos e nem sempre contamos com a possibilidade de tantas opções, deu para ver que, definitivamente, tudo é um pouco mais difícil para nós. Nossa saída? Usar a criatividade! Por tudo isso estar ali significou estar por nós.

Mesmo que algum dos meus alunos insistisse que o vestido cor de laranja daria mais contraste na água, eu fiz questão de deixar nossa marca. Enchi de verde, amarelo, alegria e um certo toque tupiniquim àquela piscina olímpica de Las Vegas. Afinal uma das palavras que mais gosto vem do tupi-guarani e significa reflexo da luz nas águas: Paranaendi.