Thalita Monte Santo
Por Thalita Monte Santo
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Dica de leitura: Espaço para sonhar, de David Lynch

No livro, é interessante perceber como ele revela que ideias não nascem necessariamente de sonhos, mas de sua predileção por boas histórias

por Revista FHOX Publicado há 5 meses atrás | por Thalita Monte Santo

Dia desses, recebemos na FHOX uma edição do livro “Espaço para sonhar”, do cineasta americano David Lynch, conhecido por obras como a série de TV Twin Peaks e o filme Eraserhead, e da jornalista americana, Kristine McKenna, que também é crítica e curadora de arte. E eu aproveitei a quarentena, por conta do Covid-19, para colocar a leitura em dia. 

Espaço para Sonhar, da editora Bestseller, vai além de uma autobiografia. Para compor a obra, Kristine fez mais de cem entrevistas, consultou datas e checou versões para produzir cada capítulo ao lado do cineasta.

Lynch
Espaço para sonhar (Foto: Thalita Monte Santo)

Cada texto teve um toque de Lynch, que leu e corrigiu respostas, capítulos, e recordações. Logo no prefácio, os autores alertam que o que se lê é uma pessoa conversando com a própria biografia. E essa é, realmente, a sensação que as páginas trazem. 

Lynch
(Foto: Thalita Monte Santo)

Chega a ser engraçado, pois ler as lembranças escritas é quase como assistir a um filme, mas com spoilers de produção do diretor sobre cada cena. Imagens de bastidores e algumas fotografias pessoais também recheiam a biografia. 

Além disso, no livro, Lynch narra fases de sua vida, como a infância, período em que suas obsessões começaram a fermentar em sua cabeça e modo de criar. Já na adolescência, ele se entregou às artes gráficas e ganhou fama ao personalizar camisetas brancas de seus amigos, com desenhos personalizados. 

Adulto, pintou um quadro em que retratava de forma perturbadora a cidade de Boise, onde viveu quando criança: no canto inferior, surgem algumas casas, mas o que chama atenção é um furacão ameaçador, que surge na lateral. Revelações, como a que envolve Elizabeth Taylor, também estão na obra. 

David Lynch conheceu e trabalhou tanto com figuras estelares como anônimos que lhe renderam grandes histórias em mais de 80 produções. Seus personagens, cuja as histórias revelam grandes almas, são deveras importantes para o diretor, como se observa na autobiografia. 

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É o caso de John Merrick, principal personagem de O Homem Elefante, longa de 1980, que teve a produção de Mel Brooks. O homem que viveu no final do século 19, em Londres, como uma aberração (sua aparência era deformada por causa de uma doença congênita), encantou o diretor justamente por sua inteligência e sensibilidade, que contrastava com seu pobre visual.

O que achei?

Lynch
(Foto: Thalita Monte Santo)

Espaço para sonhar detalha ainda a provação diária passada pelo cineasta americano, que despertava a desconfiança de refinados atores britânicos, especialmente Anthony Hopkins. Em uma das passagens da biografia, Hopkins questiona os produtores sobre a capacidade do diretor. Anos depois, o ator se desculpou.

Na narrativa, Lynch reforça o benefício conquistado pela liberdade reinante na sociedade americana dos anos 1950. Além de aproveitar para se defender de acusações que marcaram muitos de seus filmes: a de que as personagens femininas habitualmente são vítimas de violência e de obsessões, sendo normalmente espancadas ou mesmo assassinadas. 

A obra só reforça que Lynch, de fato, é um agente transformador do que as pessoas conheciam como cinema. No livro, é interessante perceber como ele revela que ideias não nascem necessariamente de sonhos, mas de sua predileção por boas histórias.