Por Sala de Fotografia
Liliane Giordano e Sabrina Didoné, fotógrafa e mestre em educação e jornalista, “um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – quer dizer – conversaram muito sobre a Sala de Fotografia, onde viriam a desenvolver muitos projetos juntas. Além de produzir muito conteúdo sobre o universo da fotografia, também vivem o mundo sobre o qual escrevem, inseridas nos processos fotográficos e de educação visual. Afinal, acompanham na escola de fotografia o desenvolvimento de alunos e de profissionais desde sua iniciação fotográfica aos mais avançados projetos de livros e exposições. Juntas, unem a trajetória acadêmica e poética de Liliane, com a dinâmica da escrita de Sabrina.

Ler imagens potencializa nossa capacidade de olhar

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Sala de Fotografia

Vivemos em um mundo inundado por imagens. A cada minuto, incontáveis novas fotografias aparecem em nosso universo imagético. Nas redes sociais ou nas mídias tradicionais, todos os dias nossos olhos se detém por poucos segundos em todo o tipo de reprodução do cotidiano por meio de lentes. Mais do que uma paixão, a fotografia, desde o seu início, e neste momento histórico mais do que nunca, é uma área fundamental da comunicação e do conhecimento humanos.

O papel do fotógrafo hoje é principalmente o de alguém que sabe ler, pensar e trabalhar imagens, da mesma forma que um escritor sabe ler, escrever e trabalhar as palavras. A fotografia é a linguagem mais universal que temos no século XXI,  mas estamos todos ainda tentando entender quais são os limites e as vantagens dessa magnífica ferramenta a que, felizmente, hoje todos temos acesso.

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Contudo, mesmo com a urgência de entender um mundo que se comunica cada vez mais sob o signo das imagens, a educação visual – educar para a leitura da imagem – não tem sido priorizada. Tem-se, agora, a noção de que o analfabeto do futuro será aquele que não souber ler e entender imagens, conforme afirma o designer, fotógrafo e pintor László Moholy-Nagy.

Hoje, talvez seja mais importante saber ler uma imagem do que até mesmo produzi-la. Donis Dondis, no livro “A sintaxe da linguagem visual”, diz que “expandir nossa capacidade de ver significa expandir nossa capacidade de entender uma mensagem visual, e, o que é ainda mais importante, de criar uma mensagem visual.”

Só se aprende a ler, lendo, ensina sabiamente o educador Paulo Freire. Isso poderia reafirmar a prática de olhar centenas de imagens por dia, assim como já fazemos de forma despretensiosa ao abrir uma rede social. Mas não basta apenas passar os olhos por uma imagem por três segundos para entender e captar o seu significado. Assim como a prática fotográfica exige um certo tempo, descompromissada da pressa cotidiana a qual nos acostumamos (tal como afirmamos no texto Fotografia: a relatividade das nossas certezas), ler uma imagem implica dedicar tempo suficiente a ela. Significa parar, refletir, descrever, decompor e recompor, para compreender e interpretar, a fim de apreende-la como objeto de conhecimento, conforme Analice Pillar, no livro “A Leitura da Imagem”.

Como se lê então uma imagem? Para isso, é preciso entender as relações entre forma e conteúdo e a sua inserção no contexto. Assim como a palavra se lê ao decodificar os seus símbolos – o alfabeto – é preciso conhecimento prévio para ler uma imagem. Se um texto pode conduzir um entendimento, a imagem pode suscitar diferentes interpretações de acordo com a sensibilidade do espectador.

Tal como um escritor, contudo, quem fotografa sempre tem algo a dizer, por mais intangível que seja, por mais que nem o fotógrafo saiba examente o quê. Isso não significa que a imagem prescinda da palavra, pois essa pode ser o instrumento para explicitar um significado imagético, mas não necessariamente conduz a leitura imagética.

A significação das mensagens fotográficas é culturalmente determinada e sua recepção necessita de códigos de leitura, de um entendimento. Ao olhar a imagem fotográfica de uma bola de futebol, se não souber o que é o objeto, não se entende a mensagem daquela imagem. Mas a leitura não pode ser tão óbvia ou tão estática. Antes mesmo de parar para olhar uma imagem, já se vê um significado. Porém, olhar é mais que somente ver. E não quer dizer que esse significado permaneça imutável. Ou seja, interpretamos, e assim podemos mudar a percepção do que vemos – de acordo com o tempo que destinamos para entender e analisar o contexto que a imagem está inserida. Assim como em um texto, interpretar uma imagem é conferir sentido a ela, atribuir significados. É criar um ritmo, uma leitura possível para aquilo que foi construído imageticamente.

Ainda há que se atentar para o fato de que nosso pré-julgamento pode nos confundir. Enxergamos uma foto antes mesmo de vê-la, nossos olhos podem nos enganar, baseados em estereótipos. Imaginamos o que é uma pessoa bonita – pois o nosso contexto sócio-histórico-cultural de alguma forma já nos condiciona a uma determinada interpretação – e rejeitamos automaticamente o que não se encaixa em nosso padrão visual ao nos depararmos com o diferente. Queremos a compreensão fácil de uma imagem, com objetos concretos que podemos nomear instantaneamente, e assim descartamos o intangível, que pode nos levar a imaginar e a sentir, elevando o pensamento e o entendimento.

A fotografia não encontra paralelos com outras formas de produção de conteúdo por ser, concomitantemente, imagem-documento e produção artística. Ao mesmo tempo que pode provar a existência de algo, sendo precisa como a ciência, há uma dicotomia que a transforma também em um objeto inexato da esfera da arte, conforme afirma Francesca Allinovi no livro “La Fotografia. Illusione o Rivelazione?”. O caráter ambíguo da fotografia a aponta como vestígio do real (portanto indiciária) afirmando assim a existência, mas por ser representação, ela cria uma ficção. Há que se ter em mente, ao ler uma imagem, que ela representa o mundo, mas não é exatamente o mundo.

As representações visuais que inundam nosso cotidiano podem ser informativas, comerciais e de entretenimento e/ou artísticas. Uma mesma foto pode conter as três possibilidades, a fotografia é polissêmica. Analisar uma imagem é muito mais do que simplesmente reconhecer seu traço primeiro. É preciso entender a estética fotográfica. Tem-se um caminho para um sistema de apreciação da imagem, com seis pontos: sensibilizar, descrever, analisar, interpretar, fundamentar e revelar (ideias de John Dewey, Edmund Feldman e Ott em pesquisa sobre “Leitura de imagens e cultura visual”).

Para ler imagens é preciso entender não só o que é mostrado, mas como é mostrado. Essa tarefa requer conhecimento, não é algo somente intuitivo. É uma característica do ser humano explorar e compreender seu entorno, para enriquecer seus conhecimentos a partir de suas experiências. Existe uma diferença entre ler o que se tem disponível e a leitura do que se produz. Um exemplo é a leitura que um indivíduo faz de imagens produzidas por outros e a leitura que ele faz da sua produção, pois estas envolvem o momento da concepção e do contexto. Para ler, então é preciso ir além e enxergar nas entrelinhas, explorando e compreendendo seu entorno, incluindo concepção e contexto para chegar a uma interpretação.

A leitura de imagens propõe reflexão, a fim de melhorar o pensamento crítico. Dessa forma, o processo de compreensão decorre a partir do entendimento da imagem e não do simples reconhecimento. Esse entendimento parte de um sistema de relações que envolvem os sentidos, os saberes e a percepção para ressignificar a imagem.