Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: https://www.amandaleite.com.br Contato: amandaleite@uft.edu.br

Kohei Yoshiyuki: O Voyerismo e a Fotografia

Uma reflexão sobre o trabalho do fotógrafo japonês e a fotografia

por Revista FHOX Publicado há 5 meses atrás | por Amanda M. P. Leite

Tomos somos voyeurs! Sim, isto é um fato. Todos os dias vasculhamos a internet e as redes sociais em busca de algo. As fotografias (e os vídeos) revelam dimensões estéticas e trágicas do cotidiano e nos tentam a um voyeurismo(1) excitante em torno de algo que nem sempre conseguimos identificar o que é. Nas telas-tabuleiros instalam-se imagens e fragmentos de ação.

Quem são as personagens que avistamos? Quem fará o próximo lance? O jogo que se estabelece estimula a espionagem, o desejo de estar ao mesmo tempo dentro e fora da cena. Agencia a duplicidade de explorar a vitrine, observar o movimento e as pausas do corpo, os modos como tudo isto se torna imagem, se transforma em espetáculo segundo Debord (1992).

No mosaico daquilo que se dá à visualidade, há, sem dúvida, um fetichismo imponente que seduz o olhar. Vontade de expandir a mônada deleuziana(2) e olhar o infinito da dobra ou da redobra que se desdobra. A figura do jogador (o espião – você, eu, o fotógrafo) assume um caráter provisório. A dubiedade voyeur expõe sua fragilidade. O espião, esse investigador atento, é fisgado pela fantasia de reconhecer e ser reconhecido.

Na visão parece estar contido certo tipo de gozo; um deleite que se dá pelo buraco da fechadura, um fluir clandestino – a espionagem. Trata-se de uma subversão – sou eu quem olha enquanto (penso) que você não me vê. Neste jogo talvez o que mais nos excite seja a alegoria ficcional que possibilita tecer narrativas através da observação de personas e de objetos por um orifício quase imperceptível.

O medo de ser apanhado não impede o voyeur de continuar investigando o objeto enigma. Estando concomitantemente tão perto e tão longe da cena, o desejo voyeurista é o de penetrar, de conhecer a intimidade dos corpos, de ver o detalhe dos movimentos, de descobrir de quem são as silhuetas desenhadas, a ginga das personagens… Na mesma captura estão envoltas a sedução e o seduzido.

O cotidiano é então observado às escondidas. Parece haver na distância que separa o observador da imagem observada, uma sensação de segurança que acaba por incentivar a investida voyeurística. Para Andrade (1994, p. 167) “quando o que era objeto descobre o voyeur, ele está perdido, acusado e exposto. Por isso a noção de “escopismo” sugere a distância como defesa protetora subjacente a todo voyeurismo”.

Seria um tipo de provocação da fotografia a demanda pela presença de um voyeur(3)? No voyeurismo que se instala na imagem, haveria a inversão ou a reconfiguração de papéis entre aquele que fotografa e aquele que observa? Quem nunca teve um gesto voyeurísta que atire a primeira pedra!

Tomo as fotografias do fotógrafo japonês Kohei Yoshiyuki(4) para endossar o pensamento sobre o fetiche(5) que se estende ao voyeurismo, ao exibicionismo e a sexualidade em suas capturas. Em Kōen(6) – uma exposição fotográfica ocorrida em 1979, na cidade de Tóquio/Japão – o fotógrafo revela em preto e branco, a partir do uso de uma câmera fotográfica de flashes infravermelhos, o registro de corpos que se entrelaçam em práticas sexuais nos parques das cidades de Tóquio e Shinjuku. As capturas instigam e surpreendem o fotógrafo e o voyeur.

Untitled, 1971 – From the series The Park Gelatin Silver Print – 20″ × 24″

A fotografia de Yoshiyuki desponta o olhar clandestino do fotógrafo. Temos a impressão de que a lente de 55mm parece se esticar a ponto de se infiltrar na cena, misturando-se ao emaranhado de braços e pernas entregues a uma volúpia concupiscente. Mãos procuram toques. Os corpos estão sensualmente expostos ao deleite e ao prazer. Onde está o fotógrafo? A que distância produz esta captura? Um passo em falso pode denunciar o voyeur. É necessária cautela.

Atento-me para a mão que se estica a ponto de penetrar o vazio e que, parece buscar o calor que queima o corpo em movimento. Esta mão, com dedos entreabertos, está à deriva de um encaixe. (É um gesto interrompido ou que deseja interromper?). Uma presença ausente na lasciva atividade sexual fisga o olhar voyeurístico. De qualquer modo, a mão quase se conecta ao braço que está estendido tocando o seio da mulher. Um tipo de contágio? Um prazer que se expande das personagens ao voyeur?

Nesta espionagem o dedo que está prestes a pressionar o obturador da câmera, parece ser arrebatado em milésimos de segundos para outro lugar, dá-se uma pausa. A sensação de fazer parte desta captura é tão singular quanto o desejo do gozo explícito na posição dos corpos que se relacionam. Toda postura é desfeita. Afixamo-nos no êxtase. O casaco, a bolsa, os documentos, um casal está no chão. Uma espécie de folhagem dá guarida à transgressão. Nesta orgia, temos dois protagonistas. Os coadjuvantes tornam o ato mais excitante. O fotógrafo é só mais um dentre aqueles que se posiciona dentro da trama eternizada.

Nas capturas noturnas o fotógrafo partia para uma espécie de “caçada” e se colocava a postos no parque a espera de que, na calada da noite, quando o parque estivesse vazio, pessoas praticassem sexo no gramado do parque. Este era o momento ideal para o registro sorrateiro de Yoshiyuki. É atraente notar que todos os componentes da imagem se encadeiam nos corpos que, por sua vez, liberam na imagem outros potenciais de leitura e de sensação.

O olhar pode se prender pela metalinguagem que abre espaço para aquele que é e aquele que deseja ser. Um jogo de passagens entre o anônimo e o conhecido, o conhecido e o anônimo. O olho que vê pelo obturador é o olho que vive um fetiche.

profano, que torna visível (ao menos em pensamento) a parte obscura, os desejos dissolutos, os gestos gravados até então na memória. Reação que se desencadeia a partir de uma fotografia e/ou de uma exposição fotográfica, por exemplo.

A figura do voyeur assume possibilidades distintas, daí a necessidade de suspendê-la e pensá-la de outros modos. Modos que podem implicar num risco, quem sabe ainda numa ousadia desejável, a fim de entrelaçar o voyeurismo e a fotografia que, talvez se configure como o componente mais perspicaz deste pensamento. Falo do voyeur como figura oculta, aquele que se esconde para “espiar” cenas do campo privado, como nas fotografias de Yoshiyuki. Mas, também observo a ação do voyeur como alguém capaz de eleger uma cena (neste caso fotografias) para examiná-las por diferentes perspectivas, não necessariamente ocultando-se em relação à imagem observada. É assim que estabeleço uma espécie de jogo de fusão onde questiono o sentido que já está dado ao voyeur, ou seja, aquele que se torna clandestino para “espreitar” a cena, para evidenciar então, a aposta em uma nova leitura sobre a figura do voyeur e o significado do próprio termo.

Ao considerar, por exemplo, que na contemporaneidade vivemos um tipo de voyeurismo autorizado, isto é, que nossas imagens são cotidianamente examinadas (via redes sociais, câmeras de vigilância, etc) por uma infinidade de sujeitos que não conseguimos mensurar e, ao mesmo tempo, estamos “autorizados”(7) a nos infiltrar nas páginas pessoais destes sujeitos, parece-me que um novo gesto voyeurístico ou um gesto voyeur autorizado – que olha e sabe que é olhado – vai sendo tecido.

Assim, você, o fotógrafo e eu nos tornamos voyeur ao buscar na intimidade do outro algo que nos seja de algum modo familiar. Somos o voyeur que olha a cidade e seus eventos. Neste jogo misturam-se os signos, os significados e as sensações. Ao esquadrinhar as coisas através de uma fotografia, por exemplo, podemos forjar outras percepções que podem transcender a própria imagem e a trama nela narrada. Perante o fragmento imagético exposto, o voyeur autorizado avança para leituras e olhares infindáveis diante de uma imagem.

A figura do voyeur cria uma fissura no tempo com vistas a colocar o sentido (quase ultrapassado) dado ao voyeurismo em descontinuidade. A partir daí, podemos pensar, quem sabe, em um novo gesto voyeurístico, mais aberto e plural, mais visível que autorizado. Um gesto capaz de tomar a fotografia exposta nos tabuleiros digitais como outra forma de ver e de pensar.


  1. Ato de observar alguém sem autorização. Muitas pessoas sentem um tipo de prazer ao observar (às escondidas) a intimidade de outras pessoas. O voyeur acredita ver sem ser visto.
  2. Mônada entendida como uma espécie de fractal; “as singularidades próprias de cada mônoda prolongam-se em todos os sentidos até as singularidades das outras. Portanto, cada mônoda expressa o mundointeiro […] o mundo só existe em seus representantes tais como estão incluídos em cada mônoda […] é como se o fundo de cada mônada fosse constituído por uma infinidade de pequenas dobras (inflexões) que não param de se fazer e de se desfazer em todas as direções” (DELEUZE, 1991, p. 147).
  3. O voyeur aparentemente pode estar impossibilitado de registrar a totalidade da cena que observa, isto é, parece estar sempre emoldurado pelo orifício que olha, pelo ângulo do seu posicionamento, pelo medo de ser visto, pela sutileza da sua presença. Entretanto, na contemporaneidade, os Realities Shows exibidos pela TV aberta parecem provocar um afastamento dessa dinâmica do voyeur na medida em que escancara pornograficamente a presença daquele que olha e que acredita estar vendo tudo.
  4. Veja outras fotografias da série em: https://yossimilo.com/artists/kohei-yoshiyuki
  5. Vale retomar o texto célebre de Benjamin (1994, p.105), a Pequena história da fotografia, que diz “se a fotografia libera certos contextos […] se ela se emancipa de todo interesse fisionômico, político, e científico, ela é considerada “criadora”. […] quanto mais os momentos individuais dessa ordem se contrapõem em si, rigidamente numa posição morta, tanto mais a “criatividade” – no fundo, por sua própria essência, mera variante, cujo pai é o espirito e a mãe é a imitação –se afirma como fetiche cujos traços só devem à vida a alternância das modas. Na fotografia, criador é uma forma de ceder à moda”.
  6. Posteriormente à exposição realizada na Galeria Komi, em Tóquio, as fotografias ilustraram um livro que recebeu o mesmo nome da exposição, Koen. Curiosamente, durante a exposição, os participantes adentravam um recinto escuro e recebiam um flash que deveria iluminar as projeções das fotográficas em exibição. A ideia era que cada participante tivesse a mesma visão do fotógrafo no instante da captura. Seria um estímulo vouyeristico?
  7. Refiro-me a uma espécie de olhar voyeur que entra em cena quando aquilo que vemos – nos é dado a espiar, a bisbilhotar, a ver – parece ter sido autorizado socioculturalmente.

Referências

DEBORD, Guy. A Sociedade do espetáculo: comentários sobre a sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

DELEUZE, Gilles. A Dobra: Leibniz e o barroco. Trad. Luiz B. L. Orlandi. Campinas, SP: Papirus, 1991.

DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Trad. Roberto Machado e Luiz Orlandi. Rio de Janeiro: Graal, 2006.

DELEUZE, Gilles. Différence et répétition. Paris: PUF, 1972.

DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 2003.

JAY, Martin. Relativismo Cultural e a Virada Visual, Tradução Myriam Avila – Aletria 2003/2004 – publicado originalmente em inglês no Journal of Visual Culture, v. 1, n. 3, de dezembro de 2002.