Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Julia Margareth Cameron: fotografia e encenação

por Revista FHOX Publicado há 10 meses atrás | por Amanda M. P. Leite

por Amanda M. P. Leite

Love in Idleness, 1867.

O que mais gosto na fotografia é a possibilidade de poder estabelecer conexões entre a realidade e a ficção. Como uma espécie de brincadeira podemos encurtar as fronteiras entre aquilo que classificamos como real e/ou virtual. Este tipo de jogo sempre esteve presente na história da Fotografia e tem muitos expoentes. O trabalho singular de Julia M. Cameron é um destes marcos onde a fotografia é assumidamente encenada, ficcionalizada. Suas capturas provocam o olhar do espectador, borram os territórios marcados pela representatividade da/na imagem.

Diferente da trajetória de outros fotógrafos, sabemos que Cameron ganhou uma câmera fotográfica e passou a fotografar por prazer, não por obrigação. Dedicou-se a capturar retratos além de temas históricos, literários e religiosos. Nascida em Calcutá, Índia (1815-1879), sua carreira como fotógrafa teve marco o ano de 1863. Cameron começou a fotografar na vida adulta. Foi uma mulher pioneira, uma das primeiras fotógrafas da história que se debruçou a capturar o gênero Retrato. Suas escolhas misturavam a subjetividade com a teatralidade, a encenação de seus personagens com o jogo de luz e sombras. Chegou a ser criticada pela falta de técnica em seu trabalho, mas, sua forma de fotografar fez de sua obra um importante referencial na história da Fotografia.

Uma curiosidade é que a fotógrafa aproveitava a presença de seus próprios amigos para fotografar e usava a sua casa como estúdio. Por ser de uma família burguesa inglesa do século XIX, Cameron contava com a colaboração de seus empregados que atuavam como modelos de suas encenações. Além disso, encontramos em seus retratos personalidades da época, como Charles Darwin e Virginia Woolf, por exemplo.

É inegável que o trabalho de Cameron continua influenciando fotógrafos contemporâneos, especialmente aqueles que buscam registrar “olhares”. Olhares intensos, amorosos, angelicais são uma das marcas da obra de Cameron. Atualmente sua obra encontra-se disponível no acervo da galeria Dimbola Lodge, sede da Fundação Julia Margaret Cameron.

Julia Cameron foi uma mulher que desafiou seu tempo. Apesar de ter descoberto a fotografia aos 48 anos, por hobbie, de modo singular, trabalhava em seus retratos uma tonalidade sépia distinta que valorizava a densidade do olhar de seus personagens. Sua estética é assinalada por elementos da pintura. Vemos em suas capturas uma forte expressão dramática, a teatralidade, o uso de indumentárias e adereços também caracterizam o fotografado. Cenários e paisagens são dispostos a fim de compor a cena desejada. As vestes e as poses têm funcionalidade de nos remeter a uma dada época e contexto.

The Parting of Sir Lancelot and Queen Guinevere, 1874.

Cameron mostra uma técnica inusitada que parece querer confundir a própria captura com pinturas a óleo. E lembremos que a pintura renascentista usava a câmara escura para produzir um traço mais realista. No caso de Cameron, o pouco uso de luz e a predominância de tons escuros ressalta a fisionomia das personalidades de suas ficções. Trata-se de uma fotógrafa bastante exigente que fazia com que seus modelos posassem por horas até que a fotografia atingisse o encantamento almejado.

Seu interesse por fotografar estava ligado as zonas do desejo e do prazer. Não necessitava deste trabalho para sua sobrevivência. Era a paixão pela captura que a permitia se debruçar por horas na montagem de um retrato. O deleite por fotografar tornava a fotografia sua potência, sua pulsão de vida. E é preciso lembrar aqui que estamos falando do processo fotográfico século XIX, mais precisamente do período da segunda fase da Revolução Industrial. Nesta época o tempo de produção de uma fotografia era outro e processo de revelação de uma fotografia exigia que a fotógrafa conhecesse diferentes químicas e técnicas de revelação.

 

O teórico Roland Barthes (1984, p. 52-53) diz que a fotografia se relaciona com o teatro, “um teatro de panoramas animados por movimentos e jogos de luz”. São estes movimentos que se destacam nos retratos de Cameron que assim como outros fotógrafos, usa fotografia para protestar, por exemplo, contra a Reforma Religiosa, mesmo se considerando católica fervorosa. Em seus instantâneos, as modelos são fotografadas com a face levemente girada. Usam panos na cabeça e os cabelos estão soltos desejando mostrar uma beleza natural não usual na época. Em outros retratos, usam asas e elementos ficcionais, crianças fazem alusão a anjos numa trama que deseja narrar algo além da imagem fixa.

Cameron não estava interessada em capturar imagens convencionais. Por se sentir livre de regras explorava uma verdade fotográfica que descrevesse os sentimentos de seus personagens. Como revelava seus negativos em placa de vidro, muitas vezes, a imagem se revelava desfocada. Por outro lado, ao assumir as ranhuras de sua fotografia como um detalhe, um valor, acabava por se diferenciar de outros fotógrafos e criar a sua marca.

Mary Mother, 1867.

Outra curiosidade é sobre Cameron é que a fotógrafa foi uma das primeiras mulheres a fotografar dentro de um espaço que anteriormente era dominado pela figura masculina. Entretanto, seu trabalho não fora reconhecido durante sua vida. Suas fotografias ganharam destaque após 69 anos de sua morte, em 1948, com o lançamento da obra “Julia Margaret Cameron: Her Life and Photographic Work”, fruto do trabalho realizado por Helmut Gernsheim.

O que me toca na fotografia de Cameron talvez seja a exaltação da figura humana em quase Deus, quase angelical, quase não-humano ou o contrário deste enigma, a fotografia revela o sujeito anônimo, esquecido, incógnito, que me autoriza a evocar o imaginário e devanear por leituras diversas. Além de dirigir a cena, Cameron, como uma deusa, ordenava que suas personagens que permanecessem estáticas num certo período de tempo. A teatralidade objetivava encenar o cotidiano, revelava discretamente a cena montada bem como os elementos que compunham a fotografia. Diante da imagem e de nossa possível identificação com o drama encenado voltamos a sonhar. Para Soulages (2010, p. 67) “nosso sonho é ainda mais vivo e pertinente à medida que a foto se afirma como encenação, ao passo que, diante do real ou do real encenado, somos escravos do sentido a encontrar”.

 

Cameron reescreve histórias religiosas, mitologias e outros temas com poesia feita de luz. Nesta fotografia artista volta à figura da Madona aspettante, a Madona vigilante, a Madona adolorata. Seria a interpretação da Virgem Maria? Retrato divinal da maternidade. Mary vigia a criança ausente da foto. Seu olhar é afável. Soulages (2010, p. 68) questiona: “Como sabemos que é para uma criança que ela está olhando? Por causa da legenda? Aqui o texto dá sentido à foto”.

O trabalho de Cameron excede a mediocridade da fotografia representativa para outra dimensão estética – a encenação. Cameron recebeu influência da pintura bem como o incentivo de artistas, dramaturgos, poetas, músicos e diretores de teatro. Entretanto, sua obra teve que lidar com a forte crítica da fotografia tradicional, que na época valorizava a representação do real na fotografia. Cameron fez escolhas, contrapôs as convenções fotográficas e foi criticada por seu estilo de vanguarda sobre produzir algo sem utilidade.

Apresentar as fotografias sem remanejá-las mostrando suas manchas e ranhuras dava autenticidade e reconhecimento ao trabalho de Cameron. Ao teatralizar o habitual, a artista mostrava que o extraordinário estava no modo de realizar a captura e não a captura em si. Soulages (2010, p. 74) afirma que “ela [Julia Cameron] abandonou a busca do “isto existiu” para escolher o “isto foi encenado”. O objeto a ser fotografado não é mais do que uma oportunidade de encenação. A estética do retrato articula-se então com a da encenação no interior de uma estética do ‘isto foi encenado’”.

Sabemos que a fotografia deseja surpreender, imobilizar um movimento rápido, fazer história, poder dizer dos sujeitos de uma época, mostrar costumes, representar, mas também, mascarar significados e re-apresentá-los. No fundo “a fotografia é subversiva, não quando aterroriza, perturba ou mesmo estigmatiza, mas quando é pensativa” (BARTHES, 1984, p 62).

Gosto de pensar que a fotografia encenada é oscilante, indulgente, não tem a pretensão de se assumir enquanto prova (de nada), pode sim ser associada a um protesto, uma obra que permite entrar em jogo a manipulação (do sujeito, do produto, da subjetividade) da fotógrafa/dos leitores, a exploração (da realidade e de suas muitas perspectivas), além de elementos que vão distingui-la da fotografia documental.

Nos registros de Cameron identificamos “quatro objetos de encenação: o cotidiano, a cultura religiosa, a história e a literatura”. Seus retratos (abertos) dão passagem a criatividade, nos estimulam a imaginar os contextos e os sentidos em que as capturas foram realizadas. Algo que aparece na foto pode não ter existido, mas ter sido encenado – o que para Cameron é um valor que tonifica a potência da imagem que se afirma em-cena-ação (SOULAGES, 2010, p. 66).

Uma ordem é dada. As personagens estão designadas a cumpri-la. Ajustam-se as lentes. Não há foco definido. A cena é criada. Está aberta e em composição. Se produz um teatro discreto ou a teatralização de um instante. Quem seduz a câmera? O enquadre? A harmonia dos gestos? A criação? Nas fotografias de Cameron a literatura se transforma em arte imagética modelada.

Em The Kiss of Peace (1869), por exemplo, estamos diante do poema Saint Agnes Eve, de Alfred Tennyson. Na captura aparece duas figuras. Os rostos estão levemente virados, harmonicamente organizados para produzir um encaixe entre as faces. A admirável e enigmática moça mais velha, toca seus lábios na testa da menina de olhos tristes. Imersas em seus submundos as personagens parecem distantes, talvez estejam mirando o sonho de Saint Agnes Eve ou qualquer outra coisa que fuja da melancolia sugerida nas pinturas pré-rafaelitas ou do poema de Tennyson.

A presença da mulher é capturada por uma ótica de olhar feminino que foge do registro de mulher objeto numa sociedade machista. O beijo da paz promove o encontro de duas mulheres que se tocam em cena, mas será que elas se relacionam? O olhar nostálgico da mulher mais velha parece evocar lembranças de um tempo não vivido, mas esperado e desejado.

Novamente notamos a influência religiosa estampada na metáfora: a mulher que se faz divina, que se faz humana. O manto envolve a angústia e a intimidade de ambas. O beijo, que (não) acontece quase revela o segredo para além do divino. (Quem sabe este é o mistério que nos fascina). A fotógrafa parte de um poema para criar linhas de fuga – uma estética da encenação – imagens da fantasia.

Por um lado, a fotografia assume a marca de um tempo-passado, um tempo que já não existe, como “testemunho natural daquilo que foi” (BARTHES, 1984, p.139), por outro lado, sua potência nos permite elocubrar, movimentar sentidos sobre a imagem que surge no tempo-presente. Ao se desprender da própria cena ela inaugura outro lugar em que as divagações são possíveis e desejáveis.

Cameron provocou o mundo com suas produções. Suas lentes encararam a autoridade expressa no comportamento de homens e mulheres machistas. Seu trabalho conseguiu romper com a estética dominante de uma época para revelar ao mundo outras cenas. Em cada captura a fotógrafa brincava com os fatos, elegia sua empregada como uma de suas principais modelos quebrando muitos paradigmas sociais.

Com Julia Cameron percebemos que o jogo do espelho é inventado, encanado, dramatizado. Suas fotografias fazem nossos olhos dançar. A fotógrafa nos apresenta o risco ao fugir de capturas clichês. Seguimos agora pensando: os retratos de Cameron são uma espécie de resistência à verdade? Uma proposição de fotografias da diferença (pós-verdade)? Se em 1863 Cameron produzia rupturas, não seria o caso de hoje arriscarmos mais e pedirmos ao leitor outras investidas para com a imagem? Como reinventar então a produção de imagens contemporâneas e articular fotografia e ficção? Questões que seguem latentes e que nos inspiram a novas criações.

 

Referências

BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

LEITE, Amanda M. P. Fotografias para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.

SOULAGES, François. Estética da Fotografia: perda e permanência. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010.

Amanda Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora e Professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite