Ian Weldon: Eu não sou fotógrafo de casamento

Trabalho do fotógrafo documental britânico será exposto na Martin Parr Foundation e também virou livro. Entenda porque a fotografia do profissional foge do trivial

por Revista FHOX Publicado há 7 meses atrás | por Leo Saldanha

Ian Weldon não se considera fotógrafo de casamento. Isso tanto é verdade que ele lançou uma exposição batizada de “Eu não sou fotógrafo de casamento” e que será exposta na celebrada Martin Parr Foundation (do renomado fotógrafo presidente da Agência Magnum). Weldon é um profissional que não busca o posado e está interessado no inesperado, na deselegância com doses de humor e a ironia da festa de casamento. E nessa abordagem ele conta com uma boa pitada de sorte (algo que costuma acontecer com quem trabalha muito).

Basta olhar as fotos para entender o motivo do reconhecimento que ele conseguiu com fotógrafos autorais do nível de Martin Parr. A obra de Weldon não segue a cartilha da fotografia de casamento. Weldon não se importa de mostrar situações que de certa forma até expõe os convidados. Os cliques do fotógrafo britânico fazem sucesso pelo Reino Unido e mundo afora. Talvez atraia casais britânicos com muito senso de humor. Coisa aliás que aquele país tem sobra. Além da exposição, as fotografias de casamento viraram livro.

Em matéria para Creative Review, Weldon disse que entrou na fotografia porque parecia bacana. Coisa de gente descolada. Logo ele percebeu que a rotina e a realidade da fotografia era bem distinta. Passou dois anos para ele perceber que não estava realizado com o trabalho “Foi quando decidi o que realmente queria fazer na fotografia. Com 38 anos de idade, ele mergulhou no estudo da história da fotografia e isso o ajudou a entender outros fotógrafos e olhar a fotografia de forma diferente.

Entre eles, o trabalho ácido de Martin Parr, foi um dos que mais chamou a atenção. Algo que antes ele nem compreendia direito, mas que depois passou a fazer sentido. Deu tão certo que ele passou a ser chamado para casamentos não só no Reino Unido, mas também fora do país. Fotografou casamentos nos Estados Unidos. Aliás, clicou o casamento do Glenn (o ator Steven Yeun) da série do The Walking Dead em Los Angeles. 

Lição para outros fotógrafos da área. Antes de encontrar o próprio estilo, Weldon corria para se encaixar em tendências e estilos do mercado (alguém se identifica?). Quando ele corria para fazer tudo o que segundo e era muito exaustivo. Uma corrida desesperada para clicar tudo nos casamentos. Fazia fotos de grupo e não queria perder nada. A melhor tradução para  ansiedade fotográfica que acomete tantos fotógrafos.

Na matéria do CR, ele diz que clicava tanto nas festas que dava até para fazer um stop motion do começo ao fim com toda cerimônia e tudo mais. Não que hoje ele não esteja atento. Na verdade, segundo ele, mostrar o caos se tornou mais fácil. E ele não poupa as cenas surreais de uma festa. Dos convidados bêbados, aos acidentes. “São só pessoas querendo festejar muito” diz ele. 

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Posicionamento (de autor) – fotógrafos com pegada mais autoral não acreditam que sabem fazer marketing. Veja que curioso como muitas vezes isso ocorre de forma distinta. “Acredito que a parte da comunicação eu faço direito. É algo fundamental na minha abordagem. Sou muito franco de como trabalho e do que faço. E o casal vê uma boa quantidade de fotos antes de acertar qualquer pagamento ou coisa do genêro” diz ele. Isso é mais uma questão acertada sobre o posicionamento dele.

O produto que Weldon vende é visível: irreverência e choque de realidade. O documental de casamento com apelo para casais que preferem essa outra vertente Prova disso é que os próprios casais que contratam Weldon acreditam que ele não é exatamente um fotógrafo de casamento. Ele sabe que seu estilo foge do tradicional e atrai clientes diferentes do tradicional. Contudo, Weldon diz não escolher clientes. Segue mais a linha do “ser escolhido” e depois tentar descobrir o que o casal “realmente quer”.

“Não faz muito sentido para mim, fotografar para noivos que querem muitos fotos posadas e em grupo. De retratos ou imagens em estilo editorial. Mostrando detalhes da mesa. Ou com uma lista de convidados para fotografar. Se me contratarem para isso será um desserviço para o casal” diz ele. Enquanto isso, Weldon reconhece que existem colegas talentosos que são melhores do que ele nisso.

Aqui fica evidente outra questão sobre Weldon. De que ele tem um posicionamento claro. Da rebeldia e de fotos não tradicionais. Por conta disso, os casais atendidos por ele (segundo ele) nunca se importaram de não ter um álbum de casamento tradicional. O que ele oferece é um estilo sem a pegada de conto de fadas. Sem o sonho encantado. Traz na verdade um ar de realidade. 

O fato é que Weldon conseguiu estabelecer uma ponte entre a fotografia comercial e a arte. O que é o sonho de muitos profissionais. De poder manter a autoria sem deixar de se vender. “Acredito que a percepção do que é a fotografia de casamento está mudando de qualquer forma. Mais ex-fotojornalistas estão entrando nesse mercado e eles trazem uma carga de credibilidade com eles” diz. Bem diferente de quando ele começou no casamento.

E nesse ponto muito semelhante ao mercado em outras partes do mundo. Como Estados Unidos e Brasil. Até o fim os anos 1990 a fotografia de casamento era um patinho feio. E só no fim daquela década e início dos anos 2000 que a coisa mudou. E agora, o que se nota é uma nova crise. A fotografia de casamento está no divã. Um tanto perdida, ou como gosto de dizer: ligeiramente fora de foco.

O que não deixa de ser uma oportunidade para fotógrafos talentosos como Weldon e tantos outros. Isso vale no Brasil como lá fora. Profissionais que buscam uma ótica toda própria e sem se curvar aos modismos. Talvez por isso, Weldon tenha se tornado uma espécie de pupilo de Martin Parr. Uma relação que começou de uma influência distante para um apoio mais próximo, de acompanhamento de Parr. Uma espécie de mentor. Um relacionamento que cresceu e se tornou colaborativo como a própria matéria da CR mostrou. 

Essa relação improvável se mostra rica em vários sentidos. Primeiro, de que é possível um fotógrafo de casamento se relacionar e se inspirar fora do meio da fotografia de casamentos. E segundo, que a fotografia de autor pode ter seu espaço na fotografia de casamento. Essa combinação envolveu um mentor (Martin Parr) e um pupilo que ninguém esperava. Deu tão certo que gerou exposição e livro de altíssimo nível. Sobre fotografia de casamento de um fotógrafo que sempre diz: Eu não sou fotógrafo de casamento!

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#ArtsInBristol – Tonight the Foundation is marking the current show with an evening of #photography, music and wedding…

Posted by Martin Parr Foundation on Tuesday, July 16, 2019

 

www.ianweldon.com
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