Thalita Monte Santo
Por Thalita Monte Santo
É jornalista e integra a redação da  Revista FHOX. thalita@fhox.com.br

Gabriel Souza, desejo que você continue fotografando

por Revista FHOX Publicado há 1 mês atrás | por Thalita Monte Santo

Por que um jovem negro, com uma câmera na mão, pode incomodar tanto algumas pessoas? Ou melhor dizendo, uma pessoa negra com qualquer objeto na mão, seja um guarda-chuva ou celular.

Hoje, logo pela manhã, soube do caso de Gabriel Souza, um rapaz de 17 anos que estava sendo difamado por moradores do bairro Eloy Chaves, em Jundiaí – interior de São Paulo, em grupos nas redes sociais.

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sexta feira 13 né, cadê o azar🖤✨

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Tudo isso porque ele foi visto com um equipamento caro registrando a natureza ao redor. Nas publicações, o garoto era acusado de estar monitorando as casas e de ser perigoso. Mas pelo contrário, Gabriel apenas treinava seu olhar no horário de descanso.

Em uma entrevista concedida à Folha de S. Paulo, o jovem, que trabalha em uma borracharia com seu pai, disse que depois dos boatos sobre ele, percebeu movimentações incomuns na vizinhança. Inclusive, viaturas da guarda passaram rondar o entorno da borracharia, como se estivessem o procurando.

Três pontos me incomodam profundamente nesse caso. O primeiro é o fato de que, talvez, se Gabriel fosse um adolescente branco, tais difamações não seriam feitas.

Fotos de Gabriel:

O segundo é que ao procurar a polícia para realizar um boletim de ocorrência, ele, o pai e o professor de fotografia, ouviram que o jovem deveria se identificar como fotógrafo, usar um crachá ou até mesmo escrever seu nome em um papel para não ser confundido com um suspeito.

“Eles disseram que não havia crime e se negaram a tomar providências. Em uma delas, sugeriram que eu tirasse uma foto com uma folha de papel sulfite com o meu nome escrito por extenso, para evitar problemas no futuro. Queriam me fichar”, disse à Folha.

O terceiro ponto, e para mim o mais grave, é que também circulou um áudio atribuído ao vereador Antonio Carlos Albino (PSB), que reforçava as acusações de suspeita: “Se vocês virem esse indivíduo pela rua, já liguem para o 153 porque a viatura da guarda já está tentando achá-lo pelo bairro. É um suspeito de estar filmando e tirando foto das casas aí.”

Para o jovem, que só quer melhorar sua fotografia e juntou as economias para comprar o equipamento (assim como muitos fotógrafos que conheço), ele sofreu preconceito.

“Tem preconceito envolvido, sim, na minha visão. O Eloy Chaves é um bairro que tem muitos fotógrafos, conheço vários deles, estão sempre pela rua, e isso nunca tinha acontecido, e eles são brancos.”

O caso reforça o fato de que algumas pessoas ainda elitizam a fotografia. A estereotipam e atribuem à ela uma imagem do aceitável ou não. É por casos como esse que se faz tão importante o surgimento de coletivos que retratem e deem visibilidade à negritude, como o Afrotometria. Ou registrem a periferia com respeito e veracidade que ela merece, assim como o DiCampana.

Que possamos sempre refletir sobre nosso espaço e o dos outros no mundo fotográfico. Que usemos a fotografia para quebrar barreiras. Ao Gabriel, desejo que cresça e sua fotografia o acompanhe.