Por Sala de Fotografia
Liliane Giordano e Sabrina Didoné, fotógrafa e mestre em educação e jornalista, “um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – quer dizer – conversaram muito sobre a Sala de Fotografia, onde viriam a desenvolver muitos projetos juntas. Além de produzir muito conteúdo sobre o universo da fotografia, também vivem o mundo sobre o qual escrevem, inseridas nos processos fotográficos e de educação visual. Afinal, acompanham na escola de fotografia o desenvolvimento de alunos e de profissionais desde sua iniciação fotográfica aos mais avançados projetos de livros e exposições. Juntas, unem a trajetória acadêmica e poética de Liliane, com a dinâmica da escrita de Sabrina.

Fotografia: educação e memória

A busca pela informação contextualizada - como a educação visual pode criar mapas de acesso ao conteúdo

por Revista FHOX Publicado há 10 meses atrás | por Sala de Fotografia

As imagens inundam e determinam as redes sociais e o mundo atual como um todo. Nesse sentido, a educação visual adquire ainda mais importância, já que ela se correlaciona com a educação midiática. Há formas de compreensão da comunicação, e há diversos tipos de imagens. Ao receber algo, é preciso ter o entendimento e para qual objetivo se destina.

O contexto muda tudo, e gera a manipulação das massas: se uma foto foi pensada para uma propaganda, e depois usada para outro fim, pode ser interpretada como dominação mundial – que parece uma teoria louca e exagerada, mas não é algo próximo a isso que ouvimos dos lados polarizados sobre política, cultura e arte em 2018?

Precisamos expandir o pensamento para entender as nossas raízes, quais são as simbologias que usamos dentro do espaço e do tempo, e que assim se refletem na fotografia. Como usar branco no Réveillon, que vem da cultura africana, ou rosa e azul para meninas e meninos, algo que parece consolidado mas na verdade é muito recente. Ou ainda as cores branco no casamento e preto no luto, que datam do século 19 e que viraram moda devido à Rainha Vitória do Reino Unido.

Foto: Liliane Giordano

A informação está aí para ser facilmente acessada, é verdade. Mas para muitos a internet ainda é baseada na piada, no meme, na autoajuda motivacional. Este público continua alienado porque não busca o conhecimento e todas as potencialidades que a ferramenta oferece: é passivo, e não tenta formar o seu próprio caminho.

À partir da educação visual, é possível criar estes mapas para aprimorar a busca da informação desde a origem. E isto significa educar as pessoas a como acessar o conteúdo. Continua sendo necessário estudar, pois as instituições de ensino se constituem agora não mais como se detivessem todo o conhecimento, e sim como facilitadoras de onde e como acessar a informação para construir escadas gradativas de aprendizado.

Ainda se discute muito o básico. Se as pessoas estão apenas na superficialidade, é necessário criar uma base sólida para só depois desenvolver um conhecimento mais aprofundado. E assim notamos o quanto precisamos da coletividade. Se não trabalharmos no coletivo, não poderemos acessar algo a mais, pois é a partir dele que debatemos em busca de uma compreensão mais avançada. Só conseguimos evoluir porque discutimos – do contrário, cada um se torna uma ilha, sem poder receber o conhecimento do outro.

E é nos espaços culturais que compartilhamos o conhecimento e trocamos ideias, assim como nos museus negociamos a nossa identidade. As atividades de inserção com a população promovidas por estas instituições fazem com que se quebrem estereótipos e preconceitos. Museus e espaços culturais são conquistas da sociedade, e promovê-los é lembrar que não apenas o trabalho engrandece o homem, mas também que “a arte existe, porque a vida não basta”, como nos ensina Ferreira Gullar.

Contudo, sabemos que este não é um momento fácil para a arte, a cultura e a educação. Nos deparamos com imensas discussões sobre os limites da arte e da censura. Devemos lembrar que cultura não é lazer: é educação. Ela faz com que as pessoas se insiram e compreendam o seu mundo, se apropriando de conhecimento e de espaços de sua própria cidade.

Portanto, não nos resta nada mais do que afirmar categoricamente que educar é preciso. E conforme o mundo fica mais complexo, cada vez mais há a necessidade de um curador. O próprio algoritmo da Netflix é um deles, ao tentar adivinhar o que você pode gostar de assistir, baseado nas suas escolhas prévias. É uma matemática maquiavélica, que pode nos manter presos à nossa própria bolha de realidade, nos apresentando sempre o que já conhecemos, sem nos abrir ao novo. Mas que, nesse mundo de excesso de informação, acaba por vezes, de fato, nos ajudando.

Sendo assim, como fica a nossa memória agora? Fragmentada, fluída, efêmera. Os processos físico e digital se misturam, sem um arquivamento. Um dos propósitos da fotografia é servir, justamente, de arquivo. Mas quanto à essa memória da própria imagem, muito nos preocupa. Afinal, pouco se guarda oficialmente.

E aqui cabe pensar o que estamos fazendo ao transformar a fotografia apenas em bytes de computador. Como no futuro poderemos olhar para as imagens do passado? Onde estarão as primeiras fotografias de nossos filhos? Nos stories do Instagram? Na memória do Iphone? Para onde irão, para as nuvens?

É sim papel da fotografia, tal como dos museus, a preservação da memória e da nossa identidade coletiva como povo. As imagens têm o poder de trazer de volta o passado para os olhos das futuras gerações. Nada mais justo que relembrar, então, que mais que pixels, a fotografia é um objeto tátil de poder, que desperta lembranças e emoções.