Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

A excêntrica fotografia de Diane Arbus

por Revista FHOX Publicado há 3 semanas atrás | por Amanda M. P. Leite

“O que mais gosto de fazer é ir a lugares onde nunca estive”

(DIANE ARBUS)

Quem foi Diane Arbus?

Conhecida por suas imagens em preto e branco, a escritora e fotógrafa Diane Arbus, produziu sua obra a partir de capturas de pessoas (in)comuns da sociedade americana. Seus registros apresentam figuras marginais do cotidiano: homossexuais, anões, gigantes, mulheres esquizofrênicas, etc. Arbus descobriu a fotografia ao trabalhar com seu marido em uma agencia de moda, no entanto, este tipo de captura era justamente contrária aos seus interesses, pois ela se propunha a vasculhar o sujeito excêntrico, marginal e, de certa forma, temia ser reconhecida como a fotógrafa de “aberrações”.

Diane Arbus teve uma vida depressiva, em 1972 suicidou-se. Depois disso, sua obra tornou-se conhecida fazendo com que fosse a primeira fotógrafa norte-americana a expor na Bienal de Veneza. De lá para cá, suas fotografias ganharam ampla projeção e reconhecimento.
Arbus nasceu em Nova York, em 1923, em uma família de judeus de classe alta. Casou-se bem cedo com o fotógrafo de moda Allan Arbus. Com ele aprendeu a gostar de fotografia, porém, renunciava as imagens que as revistas de moda mostravam com aquela visão de um mundo quase perfeito. As fotografias das revistas e do próprio mercado publicitário eram óbvias e previsíveis demais para Diane Arbus. Faltava mistério.

Diane Arbus. Stripper with bare breasts sitting in her dressing room, Atlantic City, N.J. 1961.

Em 1959, Diane Arbus deixa de ser assistente do marido, sai das revistas de moda e passa a fotografar imagens menos convencionais com sua câmera Rolleiflex. Movida por suas indagações a fotógrafa cria sua marca ao registrar as figuras grotescas do submundo social. Nesta aventura depara-se com August Sander − fotógrafo alemão notório por suas capturas documentais e retratos de distintos tipos humanos − e Richard Avedon – fotógrafo americano também popular por registros em preto e branco. A partir do fotojornalismo, Arbus fotografa para a “The New York Times Magazine” além de outras revistas relevantes da década de 1960. Sua carreira se destaca pelo registro do inusitado de figuras à margem da sociedade. Arbus brincava com as máscaras e a hipocrisia da sociedade americana. O sujeito mascarado é uma metáfora estética trágica que quer ao mesmo tempo mostrar e esconder o lado mórbido do ser humano.

Arbus concebe um tipo de fotografia escrachada que delata propositalmente o lado ridículo ou bizarro da sociedade americana. Suas fotografias ganham maior projeção na década de 60. Essa captura camuflada foca o lado oculto ou o “outro lado” que vai muito além da imagem refletida em sua objetiva. A fotógrafa brinca com os nossos sentidos e as nossas interpretações. Suas capturas exibem o impostor como verdadeiro e o verdadeiro como o falso. Cria uma espécie de espelho retorcido que provoca pela plasticidade de registros desconcertantes e perspectivas inesperadas. Para Susan Sontag (2004, p. 45) “a exposição de Arbus perfilava monstros seletos e casos extremos – na maioria, feios; com roupas grotescas ou degradantes; em ambientes desoladores ou áridos – que se haviam detido para posar e, muitas vezes, para olhar com franqueza, com segurança, para o espectador”.


O trabalho de Arbus pede que olhemos para as fotografias mais de uma vez. Lança-nos uma espécie de convite na tentativa que possamos sentir e resignificar a própria imagem. A estética de Arbus é inconfundível. Trata-se de uma fotógrafa que busca revelar com o uso do flash os elementos obscuros de cada enquadre. Aqueles e aquelas que por seus estereótipos destoam de outros sujeitos do mundo são alvo exponencial de suas lentes. Os “anormais”, os excêntricos, os marginais da sociedade – homossexuais, anões, gigantes, paralíticos – são temas das fotografias e do olhar peculiar de Arbus. Há em seu trabalho uma dimensão estética que rompe com os estilos fotográficos de sua época para compor novas alegorias.

Se a fotografia desponta o fotógrafo que a captura enxergamos na obra de Arbus pontos contraditórios – trágicos – entre vida e morte, loucura e sanidade, para além de um mero dualismo. A inconformidade com o mundo caótico arremessa Arbus para um universo conexo a alucinação (talvez esta seja uma característica de artistas que não “se encontram” no caos social). É diante do não-reconhecimento do Outro e da não-alteridade que a fotógrafa põe fim a seus conflitos e interrompe sua vida. Parece-me que o desejo de Arbus consistia em provocar o leitor diante de um mundo conflitante, espontâneo e improvável. A fotografia neste caso parece sair de uma estética representativa para levar o leitor a pensar sobre as semelhanças existentes entre o normal e o anormal, os sujeitos da loucura e dos manicômios e a sociedade norte-americana. O que a fotógrafa propõe em seus temas perturba a moral, estabelece um novo caos que aproxima a figura marginal de nós mesmos.

HEMAPHRODITE SEATED WEARING SEQUINCED STRAPLESS BRA AND PAINTEIS, 1/2 OF BODY IS SHAVED; DOG WITH HEAD RESTING ON PERSONS LAP

Ao tomar a estética do trágico Soulages (2010, p. 208-209) aponta que nas fotografias de Arbus o “idêntico é a morte”. Neste sentido, “como achar real a noite nova-iorquina, quando em seus imensos edifícios todas as janelas que brilham são idênticas”. Quando seu Eu parece idêntico aos outros eus o desafio é mostrar a singularidade da vida vivida aos muitos. O que se projeta é a evocação por uma ação ou pelo menos uma reação diante do exposto. Mas, qual seria o mundo singular de Arbus?

Arbus captura o mundo singular por perenes perspectivas. Suas fotografias dão passagem a significados infindáveis associados as coisas existentes. A morte (da fotógrafa) exibe o domínio sobre a vida. O suicídio abre uma janela de sentidos que jogam com a fragilidade da vida (e que nos reaproxima dos marginais). Mesmo não capturando a morte de frente como fez Robert Capa, Cartier-Bresson e os fotógrafos de guerra, Arbus opta por uma dimensão estética trágica da fotografia – instala-se a desordem.


Os retratos de Arbus fogem da clemência com o ser humano. Seu olhar ácido e perspicaz revela os “doentes de alma” e os “doentes do corpo”. Como um fuzil apontado para a cabeça de alguém, o canhão da objetiva dispara e aprisiona num só click um recorte temporal e espacial. Para François Soulages (2010, p. 210) “fotografar, como suicidar-se, é deter a vida, gravá-la de forma grave, fixá-la na morte e na arte, é assinar com sangue sua obra de arte e sua vida, é tentar romper com a finitude e o trágico afirmando-se” (e não foi isso que Arbus se propôs a fazer?).

Gravar o gesto caricato, esdrúxulo e/ou distorcido das pessoas era para Arbus um jogo excitante. Mas, um jogo que ela não gostava de expor, talvez por saber que a crítica atentar-se-ia mais as personagens e suas histórias do que ao conjunto da obra e sua complexidade. Não se tratava do espelho do real produzido nas capturas, ao contrário, adentrar o submundo marginalizado respaldava em conhecer-se a si mesma ou sua própria personagem. Uma imersão na busca pelo avesso. Não o avesso da margem, mas o avesso de convenções, de perspectivas. O acesso à intimidade e ao universo privado de figuras dramáticas a fim de ver o Outro bem de perto.


O interesse de Arbus não estava em capturar o miserável e súplica por compaixão. Sua estética fotográfica ultrapassa esse sintoma e se configura como um gesto político, uma intervenção social. Sontag (2004, p. 45) nos ajuda a perceber que “as fotos de Arbus solapam a política de um modo igualmente decisivo, ao sugerir um mundo em que todos são forasteiros, inapelavelmente isolados, imobilizados em identidades e relacionamentos mecânicos e estereotipados”. E mais, “as fotos de Arbus – com sua aceitação do horrível – sugerem uma ingenuidade que é, ao mesmo tempo, tímida e sinistra, pois se baseia na distância, no privilégio, num sentimento de que aquilo que o espectador é solicitado a ver é de fato outro” (SONTAG, 2004, p. 46).

Diane Arbus não teve sua obra muito divulgada no Brasil nem mesmo influenciou o trabalho de grandes fotógrafos brasileiros, entretanto, sua obra é intrigante. O que a fotógrafa fez foi uma grande revolução visual, não apenas por registrar as assimetrias de um povo, mas por usar a fotografia para repensar o humano e, sobretudo, suas diferenças. Incontestavelmente Arbus foi uma mulher à frente de seu tempo que através de suas fotos assinalava a “sociedade do espetáculo”.
O jogo criado por Arbus carece de técnica. Isto a aproxima de um “amadorismo” posteriormente evidenciado pela crítica. Não se sabe se a falta de foco ou o excesso de luz são peças propositais neste jogo, mas, a composição imagética permite que a carência de técnica desapareça lançando o leitor para um mundo enigmático. E o que dizer da técnica que permite à fotógrafa adentrar a intimidade do humano muito além de seus personagens? Nas capturas de Arbus quanto mais a bizarrice se mostra distante, mais torna possível a nossa aproximação com o Outro e suas deformidades (ou já seriam as nossas deformidades?).


Diane Arbus submergia para ver o que se escondia atrás de um segredo. Tal como o pintor René Magritte, a fotógrafa afirmava: “tudo o que vemos esconde outra coisa. Sempre queremos ver o que se oculta por trás daquilo que vemos”. Todo mistério envolvido na proposta de Arbus bem como sua dimensão estética expressa num mesmo enquadre a potência de vida e o embate de forças apresentado por Nietzsche (mas isto já é outro assunto e não teremos tempo de ampliar esta discussão aqui).

Festas de Halloween e bailes de máscaras nos hospitais psiquiátricos também eram temas dos registros de Arbus. Numa destas ocasiões capturou: A woman in a bird mask, N.Y.C. 1967 (A mulher com máscara de pássaro). O olhar da fotógrafa se contrastava com o olhar da personagem. Sujeitos e identidades múltiplas se escondiam e disfarçavam os extremos da sociedade, muitas vezes fitando a câmera. Seriam retratos de nós mesmos? As máscaras que apareciam em suas fotos consistiam em um tipo de denúncia da hipocrisia escondida na sociedade norte-americana? Qual o lugar social das prostitutas, das drag queens, do menino segurando a granada, dos corpos e mentes insanos fotografados por Arbus?


A ausência de piedade ao mostrar o lado obscuro do Outro talvez remeta a exibição de Diane e de sua própria esquizofrenia. Esta inclusive foi uma crítica feita pela fotógrafa Lisette Model que influenciou o seu trabalho. Model reconhecia em Arbus a auto expressão em seus retratos que provocavam a atribuição de sentidos e significações à deriva. No entanto, Arbus afirmava ser “impossível sair da própria pele para habitar a do outro”.

Fecham-se as cortinas, abre-se um mundo. Na foto Hermafrodita e cachorro no Carnaval de 1970, Arbus, outra vez, joga com a imagem. Os tons da escala de cinza parecem dividir a cena. No primeiro plano há detalhes de um corpo liso, depilado, que exibe um semblante polido mesclado aos adereços da personagem. Um leve sorriso esconde nos gestos da dama a faceta abstrusa (de nós mesmos?). Em segundo plano vemos a sombra, a tatuagem, os pelos nos braços e na perna esquerda onde repousa o cachorro – (O cachorro? Estaria ele compondo outro sentido à captura?). O braço estendido entrega a mão máscula e delicada que deseja sutilmente segurar algo que escapa da foto.


Talvez seja o olhar misterioso encarando a câmera que toque a fotógrafa. O rasgo imaginário, o desmanchar a fantasia, o registro do resto social, as sobras humanas dissimuladas em carnavais e manicômios ou mesmo as impensadas poses que colocam em cena uma sociedade nua e que assume um tipo de denúncia quanto as desigualdades existentes entre os forasteiros que habitam o mesmo contexto (norte-americano, anos 60 e 70). É através das fotografias de Arbus que enxergamos os limites da vida e suas cargas melodramáticas.
Importa saber que Arbus considerava o sujeito da fotografia mais complexo e importante que a própria fotografia. O legado deixado pela fotógrafa é marcado (e marca ao mesmo tempo) pela monstruosidade humana (mascarada), a sexualidade reprimida, a curiosidade pelo intrigante, os (seus) desejos silenciados, olhares que atravessaram a câmera e as perspectivas. Sem dúvida, Diane Arbus foi grande fotógrafa influente do século XX e continua a estimular o trabalho fotográfico contemporâneo. Com ela aprendemos a olhar para o cotidiano e suas personagens de modo mais atraente, mais investigativo e excêntrico.

Referencias
LEITE, Amanda M. P. Fotografias para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.
SONTAG, Susan. Sobre Fotografia/ Susan Sontag; tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia da Letras, 2004.
SOULAGES, François. Estética da Fotografia: perda e permanência. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010.

Amanda Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora e Professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins (UFT). Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite