Crônica de um mundo em quarentena: o que fazer em casa?

por Revista FHOX Publicado há 5 meses atrás | por Raphael Bittencourt

Já lavou as mãos quantas vezes hoje? Passou álcool no teclado e mouse do computador, no tablet ou no celular? Muito provavelmente você está lendo esse artigo no conforto da sua casa em um desses “gadgets”.

Sim, tem um vírus lá fora e a recomendação, às vezes como ordem, é de ficar em casa. Sendo assim, para muitos de nós a conexão com o mundo exterior e com o trabalho fica limitada ao que vem pela TV, rádio, telefone e Internet. Fazer o quê? Melhor pensar em equipe e contribuir para a desaceleração da pandemia.

Como se não bastasse a alteração, às vezes completa, de nossas rotinas e planos de curto, médio e longo prazo, o mundo todo está em polvorosa. Empresas, das gigantes às minúsculas tentando manter a cabeça fora d’água.

Muita gente tendo que trabalhar em casa e, ao mesmo tempo cuidar dos filhos, já que muitas escolas e creches estão fechando. Supermercados com prateleiras vazias. Pessoas correndo pelos corredores atrás da última lata de sardinha ou do último rolo de papel higiênico. Parece haver um tsunami chegando.

Tirando esses e tantos outros detalhes que não vou repetir aqui para não chover no molhado, o que esperar dessa crise? Como sobreviver ao caos até que a poeira baixe? Perguntas que permeiam não apenas a cabeça de quem trabalha nas grandes ou pequenas empresas, mas também de todos os profissionais independentes, freelancers.

É sabido que crises podem ao mesmo tempo trazer ótimas oportunidades dependendo da posição em que você estiver. Na área de conteúdo e entretenimento, por exemplo, o contraste entre quem está com a corda no pescoço e quem pode se dar muito bem é bárbaro. Os grandes grupos exibidores estão arrancando os cabelos com salas proibidas de funcionar e centenas de milhões de dólares de prejuízo.

Pequenos exibidores, com poucas salas de cinema, e teatros de pequeno porte, correm risco de falência. De uma hora para outra o fluxo de entrada foi a zero, mas os aluguéis e demais despesas com funcionários e estrutura continua praticamente inalterado. Se a crise de saúde se alastrar por muito tempo, pode ser fatal.

Aqui na Califórnia e nos Estados Unidos em geral, todas as produções que estavam em período de filmagem e gravação foram paralisadas. Para se ter ideia do que significa isso, pense que na média um filme do “main stream” por aqui custa U$1.000.000,00 por dia. A maioria das séries não foge muito disso. O efeito dominó é enorme.

A começar pelos investidores, com calendários precisos de fluxo financeiro e expectativa de retorno. Nem tudo pode ser postergado e certamente terão que arcar com vários prejuízos. Prejuízos que certamente se refletirão na realização, ou não, de produções futuras que estavam no planejamento.

Excetuando alguns cargos fixos, a grande maioria da cadeia produtiva, mesmo nos grandes estúdios e empresas, só é remunerada quando os projetos efetivamente acontecem. Sendo assim, diretores, diretores de fotografia, gaffers, eletricistas, assistentes de produção, técnicos de som, maquiadores, maquinistas e outros, estão em casa, sem trabalhar. São dezenas, centenas de técnicos e profissionais por produção. Juntando todos os filmes e séries que foram paralisados, são vários milhares, só em Los Angeles.

Basicamente os únicos que restaram trabalhando estão ou no começo, na fase de roteiro e desenvolvimento ou no final do processo produtivo, na fase de pós-produção. Etapas do processo que envolvem algumas atividades que podem ser realizadas remotamente ou em pequenos escritórios.

Muitas dessas produções não poderão ser simplesmente retomadas quando a tormenta passar. Envolvem calendários e arranjos complexos com locações e dependem de fatores climáticos sazonais, como neve, por exemplo. Muita coisa possivelmente só será retomada ano que vem, então. Da mesma forma, muita gente vai simplesmente ter os salários e cachês relativos a esses trabalhos adiado ou mesmo extinto. Em um ano muita coisa pode mudar.

O pior é que a grande maioria desses profissionais simplesmente não tem outra forma de ganhar dinheiro. Sem produção, sem renda. Não existe um salário.

As produções paralisadas fatalmente vão acavalar lá na frente com as outras previamente agendadas para os próximos meses. Adivinha o que deve acontecer? O efeito oposto, uma enxurrada de vagas abertas nas diferentes produções, já que os estúdios, produtoras e investidores precisarão tirar o imenso atraso. Quem viver verá e, com sorte, trabalhará.

Por outro lado, há empresas provavelmente contendo os saltos de alegria no momento, para não ficar feio. Ou pelo menos alguns setores dentro de certas empresas. Quem? Os “streamers”, por exemplo.

No caso mais óbvio, a NETFLIX, pioneira nesse mercado – o setor de produção obviamente passa pelas mesmas preocupações que comentei acima. Entretanto, o setor de streaming e novas assinaturas deve ver um boom de negócios sensacional neste momento e pelos próximos meses. Afinal, está todo mundo compulsoriamente em casa, no mundo todo. Tem situação melhor do que essa para vender acesso a filmes e séries?

Netflix
Netflix para tempos de quarentena. Imagem: Free Pik.

O crescimento global médio do referido serviço por assinatura tem sido de seis milhões de novos assinantes a cada trimestre desde 2016. Com um mínimo de 2,7 milhões de novos assinantes entre o primeiro e o quarto trimestre de 2019, e um máximo de 9,6 milhões na virada de 2018 para 2019.

É cíclico. O número de novos assinantes sempre aumenta no decorrer do ano até o último trimestre e tem uma queda brusca após a virada do ano, entre o primeiro e o segundo trimestres. Vamos ver como vai ficar em 2020. Eu aposto que veremos um pico atípico.

Claro, outros “streamers” vão se beneficiar dessa tendência também. Alguns grupos grandes que atuam tanto em streaming quanto em produções com distribuição tradicional em salas de cinema, estão revendo estratégias emergencialmente. Na impossibilidade de lançar alguns títulos nos cinemas, estão adiantando o lançamento via streaming.

É o caso de The Hunt, The Invisible ManEmma, produzidos pela gigante do entretenimento NBCUniversal. Os filmes poderão ser “alugados” em casa por U$20 a partir da data originalmente prevista para lançamento nos cinemas: 20 de março de 2020. A animação Trolls World Tour, também da NBCUniversal, poderá ser vista em casa a partir de 10 de abril.

Imagem: Divulgação.

Nem todos conseguem fazer isso, entretanto. Afeta as negociações com os grupos distribuidores. Interfere na maneira como os royalties são calculados e consequentemente na remuneração de investidores, atores, diretores, produtores e todo mundo que tem acordos ligados à performances das produções nas bilheterias e na distribuição em geral.

Novamente, a NETFLIX leva vantagem nisso tudo, pois, desde o início, pensa sua estratégia geral de produção e distribuição globalmente. Outras como a Hulu, Disney, AT&T, Apple ainda planejam seus lançamentos para o mercado americano inicialmente, para só depois expandir para outros mercados. A Amazon tem se esforçado para seguir os passos da NETFLIX na tentativa de coordenar ações em mercados além do americano.

Não para aí o boom do streaming. Ainda que as empresas do setor tenham algum estoque de novos lançamentos na manga, o hiato na produção mais cedo ou mais tarde vai se refletir na falta de lançamentos. Fatalmente terão que sair à caça de títulos já produzidos, mas ainda sem acordo de distribuição. Excelente para os vários produtores independentes que possuem filmes acabados na gaveta.

Podem apostar também no ressurgimento de filmes e séries antigas para preencher as grades como novidades requentadas. O que pode ser ótimo, pois tem muita coisa boa para assistir novamente, mas que atualmente não se encontra em lugar algum dentro do universo do streaming. Bom também para aqueles que vivem dos royalties dessas produções.

E a fotografia em meio a isso tudo? A quantas anda? Fotógrafos, particularmente aqueles que trabalham com eventos, ou seja, aglomerações, estão todos de castigo em casa. O pessoal que faz cobertura de sets de cinema e bastidores de gravações, e moda, modelos e e-commerce, também. Se a recomendação é ficar em casa, retratos e fotos de famílias também estão parados.

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Proposta artística criada por Raphael criticando e ironizando várias situações e acontecimentos relacionados à crise atual.

Nesse cenário provavelmente a única coisa que ainda anda é fotojornalismo e foto de passaportes e documentos em caráter emergencial.

Eu havia falado de oportunidade lá no começo, não é? Onde? Faz dias que estou a me perguntar – E agora José? Vai fazer o quê preso dentro de casa? Sabe aquelas coisas que você precisa, mas nunca tem tempo de fazer? Adivinhe, agora você tem.

Estou falando de coisas como organizar e atualizar seu portfólio, seu website. Arrumar aquelas dezenas de pastas de arquivos que deixam seu computador pesado e acabam atrasando seu processo produtivo. Por que não estudar e testar novas técnicas de tratamento e retoque de imagem?

É uma ótima oportunidade para pensar bastante no marketing e nas estratégias da sua empresa. Colocar tudo no papel, fazer simulações. Mandar um e-mail lá para o Leo Saldanha e conversar sobre isso tudo. Participar do Marketing 4.0 da FHOX e outros cursos e programas de aprimoramento pessoal e profissional. Usar esse tempo para fazer uma reciclagem, e voltar fervendo quando pudermos botar o nariz para fora de casa. Há até mesmo como visitar museus sem sair de casa.

Claro, nada disso resolve o problema imediato de manter o fluxo financeiro. Para isso podemos, quem sabe, revisitar a lista de clientes antigos. Ensaios já realizados. Podemos entrar em contato, a maioria vai estar em casa com mais tempo para pensar sobre isso, e oferecer produtos derivados daqueles ensaios. Fotos, retratos customizados, fotolivros. Aí depende do seu pacote de serviços. É uma grande oportunidade também para criar promoções e vouchers de ensaios em um futuro próximo.

Já pensou em ligar para aquele restaurante ali na esquina, que agora precisa tentar fazer delivery ou vender “to go”? Será que eles já têm fotos bacanas dos pratos do cardápio para o website deles?

Quem fotografa casamentos certamente tem um belo quebra-cabeça pela frente com eventos que agora irão cair em datas coincidentes. Entretanto, se você já fotografou alguma coisa, tipo aqueles ensaios pré-casamento, agora dá tempo de oferecer novos produtos. Coisas como vídeos e fusions para exibir na data do evento ou compartilhar com as famílias antes da data. Está todo mundo em casa, lembra?

Outra opção pode ser finalmente tirar do papel aquele seu projeto mais experimental. Fotografia fine art, camisetas com design exclusivo, um vídeo ou fusion juntando aquelas fotografias de texturas e de rua guardados naquela pasta, daquele HD no fundo daquela gaveta.

Usando a criatividade em casa. Imagem: Free Pik.

Você escreve bem ou sabe o que fazer em frente a uma câmera? Escreva algo, comece um blog. Faça vídeos para o Instagram, Youtube, TikTok, etc. É uma ótima forma de interagir e informar seus clientes e mostrar que, sim, mesmo com a pandemia, você está vivo.

São infinitas as possibilidades. Sem sair de casa. E não venha me dizer que você não tem tempo para isso!