“Como você vê o mundo, na horizontal ou na vertical?”

por Revista FHOX Publicado há 2 anos atrás | por Regina Sinibaldi

Ia pelo caminho pensando o que poderia perguntar a um mestre da fotografia. Algumas perguntas me surgiram, mas me pareciam torpes, de modo que avaliei que fosse melhor não perguntar nada e deixar que o mestre falasse o que quisesse.

Toquei a campainha. Uma moça sorridente veio a meu encontro e pediu para esperar, pois ele estava no banho. Enquanto esperava, senti sede. Foi pelo copo d’água que me adentrei à cozinha onde ela preparava o almoço. Ela ia perguntando de onde eu era, o que fazia, de tal modo que minha ansiedade havia desaparecido.

A conversa entre nós fluía até que apareceu Mario Cravo Neto. Fomos para a sala onde tivemos um longo papo, secreto, místico, pontuado por elementos do candomblé. Suas palavras pareciam emitidas de alguma divindade. Falamos da Feira de São Joaquim e de suas representações. Era um diálogo às vezes cortado por longos silêncios para que seu sentido fosse construído pela paciência em compreender os conceitos. Nem o almoço nos tirou dessa atmosfera.
A certa altura, traí-me e fiz uma única pergunta: foto na horizontal ou na vertical? E ele me perguntou:

“- Como você vê o mundo, na horizontal ou na vertical?”

Passei mais alguns dias em Salvador, pensando nas várias facetas do que trocamos de símbolos. Na volta para casa, carregava nas mãos os livros “O Tigre do Dahomey_A Serpente de Whydah”, “Laróyé” e “The Eternal Now”, presentes dele e autografados. No avião, depois de me acomodar, passei a rever aquelas imagens. A moça, sentada ao meu lado, me perguntou:

“- É livro de fotografia? Adoro foto, posso ver?”

capa-loroyeEla folheou os três livros em poucos minutos e devolveu-os; disse que não gostava porque tinha fotos com cabeças cortadas, outras em preto e branco e que ela não estava entendendo nada daquilo. Eu disse para ela ler os textos antes das fotografias, pelo menos partes, para compreender a proposta do autor. Ela retrucou:

“ – Gosto de ver fotos mesmo, não de ler.”

Não disse nada. Guardei os livros e fechei os olhos. Queria uma viagem em silêncio e que me transportasse para o universo das imagens daqueles livros.

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