Cinema Depois da Pandemia, o Show Tem que Continuar!

Baseado em Los Angeles, o fotógrafo e cineasta Raphael Bittencourt aborda as rápidas transformações que estão ocorrendo nesse instante na indústria cinematográfica

por Revista FHOX Publicado há 6 dias atrás | por Raphael Bittencourt
O cinema depois da pandemia. Foto: Raphael Bittencourt

Já estamos quase na metade do ano e após alguns meses de pandemia temos uma certeza: a vida nunca mais será a mesma. Em sua volta ao mundo, o vírus causou e ainda está causando grandes e pequenas revoluções.

No seu rastro já podemos identificar países onde o problema já parece contornado, como a Nova Zelândia, a Coréia do Sul, talvez a China.  Em outros as coisas começam a se definir e o pior aparentemente já passou, como na Alemanha, na Espanha, na Itália. Existe um terceiro grupo ainda que não faz a menor idéia do tamanho do problema que têm pela frente.

Entre protestos por “vamos trabalhar” ou “vamos ficar em casa”, os diferentes setores buscam soluções e formas de se manter operando do jeito que der: home office, delivery ou o que der pra fazer sem transgredir as recomendações de distanciamento social, saúde e limpeza. O setor audiovisual, claro não está aquém disso.

Cenas que nunca mais se repetirão nos bastidores. Foto: Raphael Bittencourt

Na indústria do entretenimento a etapa que mais sofreu foi a produção, pois envolve, literalmente, aglomerações de pessoas em espaços frequentemente pequenos, fechados, durante longas horas. No momento, os sets de filmagem estão inoperantes. As fases de desenvolvimento e pós-produção, estas sim, puderam continuar mediante algumas adaptações menos complicadas. Dá pra fazer muita coisa remotamente.

A produção, entretanto, não ficou 100% paralisada. Muita energia está sendo investida nos bastidores na tentativa de viabilizar a retomada das produções, mas tudo vai mudar, e como. Nos últimos dias começaram a pipocar os esboços de qual será a nova ordem dentro das produções audiovisuais.

Aqui nos Estados Unidos, no Estado da Flórida, por exemplo, toda a equipe precisará responder um formulário completo para determinar se foram expostos ao vírus recentemente. Eles vão adiante e determinam que a temperatura de todos seja medida no início e no final do expediente e os dados devem ser monitorados no decorrer da semana, por meio de um gráfico, para detectar quaisquer variações suspeitas.

Cenas que nunca mais se repetirão nos bastidores. Foto: Raphael Bittencourt

As diferentes equipes (arte, maquinaria, fotografia, maquiagem, etc) poderão estar no set de filmagem uma por vez, se alternando, nunca ao mesmo tempo. Sempre que possível, manter a distância mínima de dois metros. Kits de equipamentos e ferramentas deverão ser individualizados, nunca compartilhados. Câmeras e equipamentos deverão ser manuseados com luvas e desinfetados constantemente.

O tradicional buffet nas refeições deve ser abolido e as porções deverão ser preferencialmente embaladas individualmente. As filas se houverem, deverão ter marcações de distanciamento  no chão. O consumo das refeições deverá respeitar o distanciamento ou as pessoas deverão ir aos respectivos carros para se alimentar. As vans que transportam equipes agora só poderão transportar 2 pessoas por vez e deverão desinfetar o veículo a cada viagem.

Cineastas de olho no futuro. Foto: Raphael Bittencourt

Os atores deverão usar equipamento de proteção facial transparente, aquela viseira que cobre o rosto inteiro, durante os ensaios. Apenas no momento da gravação propriamente dita poderão ficar sem a proteção. Se houverem cenas de contato mais íntimo ou próximo, como um beijo, os atores envolvidos deverão ser testados e precisarão apresentar o teste negativo.

Depois de iniciada a produção, a recomendação é que todos os envolvidos sejam colocados em quarentena em alojamentos ou hotéis, para que não precisem regressar para casa no final das diárias. O intuito é evitar trazer o vírus de fora para dentro do set ou levar do set para fora.

A lista detalhada de normas da Flórida segue por seis páginas, organizada em normas gerais e por departamento.

Mudando de estado, em Iowa, ainda nos Estados Unidos, as normas são bem mais genéricas e se alongam por apenas duas páginas. Algumas coisas como a eliminação de áreas de catering e distribuição de alimentos embalados individualmente coincide com a do outro estado.

Iowa também determina que nunca poderão haver mais do que 10 pessoas no set ao mesmo tempo. Estações de lavagem e higienização das mãos devem ser fartas e instaladas em diferentes áreas do set, camarins, etc. Contratos, ordens do dia, relatórios e documentos em geral devem ser digitais sempre que possível. O fluxo de pessoas ao redor do set deve ser estabelecido em apenas um sentido. Assim as pessoas andam sempre para o mesmo lado e não se cruzam no meio do caminho.

A Califórnia já começou a esboçar suas regras também. Uma das maiores produtoras, a Lionsgate, divulgou um documento de, pasmem, 20 páginas. Novamente, muitas coisas coincidindo com os anteriores, como as estações de sanitização visíveis e distribuídas por todo o set, bastidores, escritórios de produção, etc.

A produção deve fornecer lenços desinfetantes, luvas, máscaras para toda a equipe. Deverá haver uma equipe dedicada a limpeza e desinfecção diária de todos os ambientes. Visitas e pessoas estranhas ao set são terminantemente proibidas. Cenas com muitos atores e figurantes deverão ser agendadas sempre para o final do calendário de filmagem. Deverá ser aventada a hipótese de uso de personagens criados digitalmente em tais situações.

Objetos de produção devem ser colocados em quarentena em um depósito após serem comprados ou alugados, antes que a equipe que vai atuar no set comece a manuseá-los.

Os profissionais devem ser distribuídos em áreas específicas dentro da locação e não poderão circular livremente entre uma área e outra. A movimentação deverá ser controlada para evitar contatos desnecessários entre uma equipe e outra.

Ainda nos Estados Unidos, o SAG-AFTRA (Screen Actors Guild and the American Federation of Television and Radio Artists), sindicato dos atores de cinema, televisão e rádio, determinou a todos os membros que não aceitem nenhum trabalho sem antes submeterem o projeto à aprovação do sindicato.

Um novo amanhecer em Hollywood. Foto: Raphael Bittencourt

Mudando de continente, na Irlanda, os novos procedimentos vieram na forma de um longo panfleto ilustrado. Novamente, muitas recomendações coincidem, como a preferência por arquivos e documentos digitais, e não impressos. Processos de Casting, reuniões de produção e escolha de figurino deverão ser sempre remotos. A contratação de elenco menor de idade deveria ser evitada, a menos que os menores sejam parte de uma família inteira de atores atuando em determinado trabalho.

A câmera nunca poderá ficar a menos de dois metros dos atores. A quantidade de fornecedores e casas de locação de equipamentos deverá ser limitada para garantir a maior uniformidade possível na sanitização dos equipamentos. Segundos assistentes de câmera deverão desinfetar todo equipamento de câmera antes e depois das filmagens. Profissionais de maquinaria devem fazer o mesmo com os respectivos equipamentos. A jornada normal de trabalho no set sofrerá um acréscimo de tempo para contabilizar esses procedimentos de desinfecção. Bacias para desinfecção das solas dos calçados devem ser colocadas em todas as entradas do set.

Rumo ao sul, mais precisamente África do Sul, as normas de reabertura do audiovisual correm por 21 páginas em um documento detalhado com menções a cada departamento e etapa do processo.

Por lá tudo o que der pra ser feito em sistema de home office deve ser feito. Dentro disso entram diversas tarefas executivas da produção. Quaisquer trabalhadores imunodeprimidos devem informar sua condição à produção antecipadamente. Trabalhadores acima dos 60 anos devem trabalhar de casa.

No set, ao chegar, todos devem responder a um questionário e terem a temperatura aferida. Após esses procedimentos, os trabalhadores recebem uma pulseira válida para aquele dia, dando acesso ao set de filmagem. Quaisquer sintomas de acometimento pelo vírus devem ser informados imediatamente à produção.

Pelo menos um fiscal médico ou de saúde deve estar presente em todas as gravações e deve ser designada uma área para consultas e check ups de saúde. Antes de todas as gravações deverá ser feito um briefing geral sobre as regras de saúde e segurança. Elenco com mais de 70 anos deve abster-se de participar de processos de casting até que a epidemia esteja controlada. 

As refeições, que antes, nos sets ao redor do mundo todo, aconteciam simultaneamente por todos os departamentos, agora devem ser escalonadas. Por departamentos ou por grupos, para evitar acúmulo de pessoas e filas. Todo equipamento de maquiagem deve ser desinfetado entre os usos ou ser descartável. Cada ator deve ter uma paleta exclusiva e não compartilhada para a mistura da respectiva maquiagem. Caminhões de produção, equipamentos, etc devem ser inteiramente esterilizados.

O que vimos acima foi apenas uma pequena pincelada nas mudanças que vêm por aí no setor. Alguns lugares com regras mais rígidas e detalhadas, outros nem tanto. Grandes empresas como a pioneira do streaming, a NETFLIX, já têm profissionais correndo o mundo a coleta dessas novas regras.  A ideia é formatar seus próprios processos de modo não apenas a se adequar a nova ordem, mas também de garantir a segurança de seus colaboradores.

A internacionalização de produções vai depender muito disso e quem quiser continuar em frente terá que se adaptar. Prazos e custos terão que ser revistos e certamente aumentarão.

A certeza que fica é que ninguém, pequeno, médio ou grande, poderá escapar de rever os processos. A tendência é que com o tempo as normas dentro do set se padronizem e acabem mesmo por mudar as legislações e contratos vigentes mundo afora. Certamente muitos destes novos procedimentos refletirão também na logística e nos processos da fotografia, entretenimento e afins.

O que importa é que o show tem que continuar!

Raphael Bittencourt é fotógrafo e cineasta brasileiro atuando em Los Angeles.