Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite Contato: amandaleite@uft.edu.br

Charles C. Ebbets: o lendário fotógrafo de altitude

Amanda Leite conta detalhes sobre a famosa foto de Charles C. Ebbets. Imagem que até hoje causa espanto e grande impacto

por Revista FHOX Publicado há 3 meses atrás | por Amanda M. P. Leite
Lunch atop a skyscraper

Na icônica fotografia de Charles C. Ebbets, de setembro de 1932, onze operários descansam em cima de uma viga de construção. Como? Isso mesmo, eles estão no topo do GE Building, um edifício localizado no complexo do Rockefeller Center, no centro de Nova York, próximo da altura do 69º andar. Os trabalhadores parecem disfrutar tranquilamente do horário de almoço, mesmo não estando presos a nenhum equipamento de segurança. Como isso foi possível? A imagem causa em nós certa aflição.

Com mais de 80 anos, a fotografia de Charles Ebbets, é uma das mais importantes do século XX. Talvez você já tenha visto a imagem em restaurantes, lanchonetes, galerias de arte ou na própria Internet. Pode ter curtido ou compartilhado nas redes sociais, como uma das grandes fotografias produzidas nos últimos tempos. Uma imagem que se anuncia como verdade (captura de um instante real) e se aproxima da ficção (aparentemente encenada). Fotografia que inquieta o olhar.

Assim que foi publicada no jornal New York Herald Tribune, em 2 de outubro de 1932, a imagem gerou desconfiança no público, que suspeitava ser uma montagem. Será que os trabalhadores, justamente por conhecer tão bem à construção do edifício, descansariam assim? Do alto da viga, seria possível reagir a fatores climáticos como uma chuva de súbito ou uma ventania? Talvez seja o bom humor da imagem que a faça tão popular. Ken Johnston, diretor de fotografia histórica da agência Corbis, após analisar o negativo original a pedido do jornal The Telegraph, assegura que a fotografia não é uma montagem.

Hoje é interessante observar como às pessoas se esforçam para desmascarar a imagem como se pudessem afirmar: – Olhem! Descobri a verdade por trás da foto! Uma fotografia tecnicamente bem composta e enquadrada que parece hipnotizar o olho que vê. Na data de sua publicação, a imagem não exibia a autoria do fotógrafo[1], um dado comum para notícias publicadas na década de 1950, nos Estados Unidos. A legenda anunciava: “enquanto os milhares de restaurantes nova-iorquinos e lanchonetes estão lotados no almoço, esses intrépidos trabalhadores no topo do edifício de 70 andares no Rockafeller Center desfrutam de todo o ar e liberdade que desejam. Almoçam em uma viga de aço a mais de 800 pés de distância do chão”.

A legenda destaca a construção do edifício, sua imponência no centro da cidade, aguça também o imaginário dos leitores sobre “novos ares” para aqueles que “desejam a liberdade”, exibe a promessa de futuro e de modernidade para o difícil período da Grande Depressão[2]. A Grande Depressão (também conhecida como Crise de 1929) foi um período de longa recessão econômica que se estendeu pela década de 1930, tendo seu fim somente com a Segunda Guerra Mundial. Foi a maior recessão econômica de todo o século XX. A queda da Bolsa de Valores de Nova Iorque gerou desemprego e quedas de produtos industriais em diversos países. Talvez por isso, os trabalhadores se submetessem a qualquer tipo de emprego, mesmo que as condições de salário e de segurança fossem precárias. Mas, será que os operários de Lunch atop a skyscraper receberam algum incentivo para arriscar suas vidas e protagonizar uma das cenas mais conhecidas do século XX?

Sabemos que o fotógrafo não ganhou reconhecimento na época da publicação, talvez nem tenha sido recompensado financeiramente uma vez que a autoria da fotografia só foi reconhecida 71 anos depois. Assim como os operários, o fotógrafo também ousou, colocando-se na mesma altura da viga de aço para produzir a captura. Montagem, verdade, jogada de marketing para promover o lançamento do Rockefeller Center… sobre esta fotografia sempre haverá controvérsias e talvez seja este o seu valor. O convite é pensar sobre o jogo de forças que por vezes engana, inventa e provoca dobras na fotografia. Nosso olhar pode tanto mergulhar na imagem e misturar-se a ela, quanto afogar-se nos múltiplos da visão.

Se entendermos montagem como manipulação nas etapas de pós-produção da imagem, a partir da análise do negativo original de Ebbets, diremos que não existe montagem, ou seja, o fotógrafo capturou a cena no instante real. Agora, se entendermos montagem como ficção, encenação ou direção de personagens, aí diremos que houve montagem. Mas, isso importa? O que nos faz desejar classificar as coisas entre verdade, montagem e mentira? Não seria mais atraente perceber e/ou deslocar significados e sentidos como a própria fotografia sugere?

De um lado a fotografia parece marcar o realismo (e se apodera de um discurso de verdade para se legitimar como fonte histórica); de outro lado, surge como vestígio, ficção, que não prova absolutamente nada. Boatos sobre imagens que historicamente marcaram épocas ou foram premiadas acontecem com frequência, se espalham rapidamente e se anunciam como efeito de verdade ao mundo. O veículo que divulga a fotografia é o mesmo que manipula e levanta suspeita sobre sua autenticidade. Na era da pós-verdade, para lermos as fotografias implica em considerarmos o debate que existe sobre elas, desconfiando de evidências e certezas acomodadas. Rancière (2012, p. 103) aponta que “a imagem não deixará tão cedo de ser pensativa”.

[1] Ken Johnston, responsável pela análise do negativo original, reconheceu em 2003, Charles C. Ebbets como o autor da imagem. O negativo da imagem em 1996 se repartiu um quarto pedaços, mesmo assim, a análise de Johnston é a de que não houve nenhuma manipulação ou montagem feita pelo fotógrafo.

[2] Outra fotografia que marcou este período e ficou reconhecida mundialmente é Migrant Mother, de Dorothea Lange. Aqui não teremos tempo para explorá-la, mas, recomendo ler mais sobre ela.

Veja outras fotografias de Charles C. Ebbets – o fotógrafo de altitudes:

Referências

 LEITE, A. FOTOS INCRÍVEIS: anedotas que ganharam o mundo. Revista Observatório, v. 4, n. 1, p. 200-219, 1 jan. 2018.

RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. Tradução Ivone C. Benedetti. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2012.

Amanda Leite é fotógrafa. Doutora e Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Pesquisadora e professora no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade e no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Tocantins. Site: http://amandampleite.wixsite.com/amandaleite E-mail: amandaleite@mail.uft.edu.br