Por Amanda M. P. Leite
Amanda M. P. Leite é fotógrafa. Doutora em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina. Professora e Pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Sociedade na Universidade Federal do Tocantins. Site: https://www.amandaleite.com.br Contato: amandaleite@uft.edu.br

As espantosas ruínas de Romain Weffre e Yves Marchand

por Revista FHOX Publicado há 1 ano atrás | por Amanda M. P. Leite
GIRARD AVENUE THEATER, PHILADELPHIA, PA, 2011

Romain Meffre e Yves Marchand são fotógrafos do subúrbio francês que ficaram conhecidos pelos registros das ruínas de Detroidt, série intitulada: “The Ruins of Detroit”, Steidl, 2010. Suas buscas desde 2002, tem sido fotografar as transformações da paisagem urbana ao longo dos tempos. É uma espécie de registro sistemático de ruínas. O objetivo deste trabalho é tornar mais evidente as construções do século XIX e XX, que hoje, encontram-se abandonadas em diferentes partes do mundo. Em 2013, os fotógrafos publicaram o segundo livro: Gunkanjima, também pela Steidl e de lá para cá o trabalho de Meffre e Marchand volta-se à captura de velhas indústrias e edifícios antigos.

LOEW’S THEATER, MONTREAL, QC, 2013

Estamos diante de grandes casarões, fachadas remotas, teatros abandonados, ruínas…. Temos a sensação de que a obra pode trazer àquele que a observa, momentos de lucidez. O gesto de despertar deriva de um distanciamento da imagem, que causa impacto. Se o desafio da ruína é escavar e reconstruir a coisa ou objeto em si (como pontuou o filósofo Walter Benjamin, 1994), temos no despertar, ruína e renovação, no mesmo gesto. Significa avançar sobre a ausência contida na ruína, para mostrar aquilo que não está ali. Então, como uma espécie de voyeur, escavamos a foto, examinamos minuciosamente, buscamos algo, seja o referencial, as sensações, os sentidos…

WESTLAKE THEATER, LOS ANGELES, CA, 2008

O passado e o presente, a ação e a pausa do movimento, o sonho e o despertar são componentes basilares no encontro da ruína com a fotografia. Componentes estes que, às vezes, passam quase imperceptíveis ao olho que vê (ou que acredita ver). A ruína da fotografia se configura enquanto índice; ela abre passagem ao que ainda não foi dito, ao que ainda não foi escrito (e por que não pensado?) na/sobre/com e pela fotografia. Na exposição daquilo que parece ter ocorrido, a ruína libera outras entradas que nos aproximam às alegorias de um pensamento que (re)significa a cena, os objetos, as personagens, a presença/ausência como sugere Benjamin (1994) e Barthes (1984). Os rastros se colidem à figura do espião que rastreia a parte privada do humano.

RKO DYKER THEATER, BROOKLYN, NY, 2009

A ruína não morre, ao contrário, dá pistas de um tempo futuro. Os destroços deixados por desastres naturais, guerras, catástrofes decorrentes da presença humana, os restos descritos pela história, são indícios de leituras de outro tempo. Um tempo-que-se-faz-imagem. Camuflagem. Um fragmento imagético que roga, quem sabe, por novas narrativas ou pela ruptura do congelamento da imagem fotográfica. “O observador sente a necessidade irresistível de procurar nessa imagem a pequena centelha do acaso, do aqui e agora, com a qual a realidade chamuscou a imagem, de procurar o lugar imperceptível em que o futuro se aninha ainda hoje em minutos únicos, há muito extintos, e com tanta eloquência que podemos descobri-lo, olhando para trás” (BENJAMIN, 1994, p. 94).

O mosaico que se compõe diante dos olhos faz fruir a perceptibilidade da imagem. É como um castelo de cartas prestes a desmoronar. Ali, até a respiração do jogador importa. Há uma espécie de prazer transitório, promíscuo e irresistível associado a este mosaico. Descortinar o silêncio inapreensível das imagens é talvez a obsessão do voyeur que analisa cada linha, cor, sombra, nuance imagética que se interpenetra. Tal vistoria perpassa as entrelinhas de um gozo explícito no tripé entre aquilo que se oculta, aquilo que se manifesta e aquilo que se desvenda. Em presença de um encantamento enigmático contido na composição imagética, o voyeur pode dissimular seu próprio desejo, isto é, diante da perversa sedução pode mascarar-se de modo que sua opinião sobre a cena não venha a público, não se revele, mantendo-o entregue e escondido.

Voltando aos fotógrafos Romain Meffre e Yves Marchand[1] são dois exemplos de olhos que também percorrem a cidade. Em um de seus exercícios fotográficos capturaram as ruínas da cidade de Detroit, que foi um dos grandes centros comerciais dos Estados Unidos da América. Uma cidade que teve o ápice econômico na década de 1950, com o crescimento do setor automobilístico, e que posteriormente, enfrentou o declínio financeiro com a infiltração japonesa na venda de carros importados. Fator que modificou radicalmente o fluxo da cidade e o sonho americano da Motorcity.

Em decorrência da má administração pública e do enfraquecimento da potência comercial, houve um grande êxodo populacional. O esvaziamento da cidade teve como consequência o abandono de casarões, lojas, edifícios comercias, escolas e residências. O vácuo que assola a cidade modifica cada vez mais a paisagem urbana que, permanece em ruínas até hoje.

Yves Marchand declarou em uma entrevista cedida em janeiro de 2011 ao The Guardian[2] que: “parece que Detroit foi abandonada para morrer. Muitas vezes entrávamos em enormes edifícios de art déco, antigamente decorados com bonitos candelabros, colunas ornamentadas e frescos extraordinários, mas estava tudo a desfazer-se e coberto de pó, e o sentimento de que tínhamos entrado num mundo perdido era quase esmagador. De uma forma bastante real, Detroit é um mundo perdido – ou pelo menos uma cidade perdida onde a magnificência do passado é evidente em todo o lado”.

BEAUTY SALON AND BARBER SHOP – LIVRO Gunkanjima

A imersão neste território quase desmoronado privilegia aos fotógrafos encontrar os restos do que fora o esplendor de um tempo que sobreveio. É neste contexto que as capturas se produzem. O olhar curioso e talvez despretensioso, invade os estilhaços, vasculha um passado/presente, busca a vida inerente à ruína. A poeira nas cortinas rasgadas, as vidraças quebradas, a parede em decomposição, o escritório devastado, o piano largado ao chão… Resultam no registro da decadência de Detroit que também é pulsão de vida na fotografia/ruína.

Olho uma destas imagens e me surpreendo. Não sei se a surpresa se relaciona ao choque, por ver os espaços destruídos ou ao pensamento reflexivo que, considera a câmara fotográfica como instrumento detentor de toda a experiência da coisa em si, revelada na fotografia, e não mais o ser humano, como o ser da experiência. Não enfatizo os lugares abandonados, mas a narratividade do naufrágio da cidade.

MOSAICO DE ABERTURA DO SITE DE ROMAIN MEFFRE E YVES MARCHAND

Diante do exibicionismo sou provocada a examinar as fotografias com mais acuidade. Meus olhos percorrem as linhas de cada arquitetura. Procuro nas fotografias espalhadas no chão ou nos destroços de um apartamento, um rosto conhecido, talvez o humano. O que vejo se estender é a escassez da parcela humana na paisagem. Perder-se e achar-se entre os perdidos. Diante das espantosas ruinas de Romain Weffre e Yves Marchand me distancio, para abrir os olhos e despertar. Estou arraigada à imagem que não se desgruda de mim.

Todo fetichismo presente no gesto que testemunha a cena às escondidas e que cria narrativas históricas sobre cada trama, tende a desaparecer. O que nos resta é a imagem. Uma imagem que não sabemos dizer do contexto do qual fizera parte, das personagens e dos elementos que a compõe. Algo inacabado, aberto. Entretanto, permite ser descoberta por um rasgo, por infinitas leituras. Um lampejo de pensamento faz com que a fotografia não caia no esquecimento. Essa fotografia vigiada é também matriz de uma ruptura pós-histórica, na qual interessa pensar sobre os alhures do encontro com o agora.

É no gesto do voyeur que “espiamos pelo buraco da fechadura”. Elegemos uma cena, uma paisagem ou mesmo uma fotografia e nos debruçamos cautelosamente sobre elas. Investigamos cada detalhe como se desejássemos cavar a terra à procura de um tesouro esquecido. Sabemos que a fotografia pode transcender o fato nela cristalizado, o fragmento apreendido.

Uma espécie de estética da catástrofe parece buscar guarida nos tempos em que vivemos. De certo modo, o ser humano que não aparece nos registros de Romain Meffre e Yves Marchand, nos casarões de Detroit, nos edifícios antigos de Gunkanjima ou mesmo nas ruínas de velhos teatros já ocupados por lojas, academias de ginástica, etc… mostram uma presença/ausente –seja nos retratos espalhados pelo chão ou no pedaço do tecido vermelho rasgado que sobrou dependurado no teto do salão. Ao permanecer diante destas fotografias permanecemos diante de outras temporalidades.

O voyeur que espreita a fotografia/ruína pode identificar a protrusão de uma narrativa histórica linear em capturas “quebradas” de um pseudoprogresso. O registro ruína, ao mesmo tempo em que permite observar o episódio passado e os destroços deixados por furacões, tempestades e rajadas de vento, igualmente possibilita notar a fotografia enquanto narrativa viva da cidade. Os rastros humanos parecem viver por meio de uma estética da destruição.

Quando a fotografia rompe com a continuidade de um tempo ou de uma narrativa histórica, produz o choque benjaminiano. A perda da aura fotográfica parece admitir que a fotografia se torne autônoma para colocar em movimento a reconstrução de outras realidades. O que vê o voyeur na fotografia/ruína? Em que medida o fascínio em torno da fotografia provoca um olhar voyeurístico? Quando estamos com a câmera fotográfica nas mãos, “espiamos” o outro ou a nossa semelhança nele refletida? É interessante admitir que a fotografia pode se configurar enquanto uma sublimação criadora que libera sensações à deriva.

Muito ainda poderia ser dito sobre o voyeur, o olhar voyeurístico e a fotografia/ruína. Estes temas nem sempre se entrelaçam, entretanto aqui, ganham outro pulsar de vida. A escrita, assim como a fotografia, se transforma no tempo. Um tema gera outro tema. Uma imagem faz alusão a outra. Na medida em que a trama vai sendo tecida por um emaranhado de fios, nossa memória é tensionada. Nos aventuramos a “espiar o buraco da fechadura” para ver o que mais ganhará fôlego entre os achados e perdidos. Desagarram-se de nós as certezas para que a curiosidade e/ou um pensamento crítico se instale. Depois disto, gostaria de saber: o que você descobriu[3]?

 

Referências

BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre a literatura e história da cultura – Obras Escolhidas, v. I. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo: Brasiliense. 7 ed. 1994.

LEITE, Amanda M. P. Fotografias para ver e pensar. Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2016.

[1] Outro trabalho que percorre cidades e que também nos possibilita encontrar a noção de fotografia/ruína é a produção do fotógrafo canadense Robert Polidori e a produção da fotógrafa brasileira Rosangela Rennó. Seus trabalhos vão compor um tipo de narrativa estética visual da catástrofe, mas falaremos disto em outro artigo.

[2] Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/artanddesign/2011/jan/02/detroit-ruins-marchand-meffre-photographs-ohagan> acesso em 07 de setembro de 2014.

[3] Para continuarmos esta conversa, você pode tentar responder esta questão ou fazer outras indagações e me enviar por e-mail. O que acha? E-mail: amandaleite@uft.edu.br