Blog do Léo
Por Leo Saldanha
É publisher da FHOX e também responsável pela Escola de Negócios FHOX leo@fhox.com.br

“Apple está se transformando em uma empresa de câmeras”

Essa é a chamada de uma matéria recente CNBC e os fatos apresentados no artigo comprovam a afirmação

por Revista FHOX Publicado há 1 mês atrás | por Leo Saldanha

Na última semana a Apple lançou a nova versão do iPhone. Sem grandes inovações, o enfoque foi bem grande na fotografia. Tanto é verdade que a CNBC fez uma matéria dizendo que a Apple está se tornando uma marca de câmeras. Os argumentos do artigo comprovam isso:

– A Apple passou mais tempo falando na apresentação da câmera do iPhone do que dos novos serviços ou do iPad

– Para especialistas, a fabricante parece finalmente ter (re)despertado para a importância da fotografia. Na visão deles, a Apple acredita que pode fazer mais melhorias para se diferenciar dos rivais. Caso do “Modo retrato Pet” e do Deep Fusion.

Preste atenção no design do iPhone 11. Tirando a versão Pro pouca coisa mudou do último lançamento. Não me parece mero acaso. Aliás, ainda de acordo com a matéria destacada no começo desse post, a Apple ficou 13 dos 100 minutos falando só de fotografia do iPhone 11 Pro durante o grande evento e outros 7 minutos falando só da câmera do iPhone 11. Esse enfoque grande nesse sentido é um jogo para tirar o atraso. Lembrando que a marca está na quarta posição mundial em vendas (atrás da Xiaomi) e as líderes seguem a Samsung em primeiro seguida pela Huawei. Voltando ao tempo dispendido na apresentação, a marca passou 16 minutos falando do Apple Watch. Ou seja, 1/5 do tempo de tudo o que foi falado era sobre fotografia.

Não foi a CNBC que destacou a importância da fotografia para a Apple. Pois a Deutsche Bank resumiu o evento assim: “câmera, câmera, câmera. Esse é o novo iPhone 11”. A Above Avalon disse que a fabricante está posicionando a câmera como o grande diferencial. Tanto é verdade que as novas peças de marketing, vídeos e publicações para divulgar os aparelhos estão a mostrar a câmera tripla do iPhone 11 Pro como o grande destaque.

Acho curioso essas publicações falando de fotografia como o grande chamariz da marca. Desde o começo a Apple do Jobs mostrou que a fotografia seria parte estratégica do negócio. Jobs entrou até para o hall off ame da fotografia nos Estados Unidos. Jobs foi se consultar com uma de suas referências muitos anos antes de lançar o iPhone. Ele era meio que pupilo do Edwin Land, fundador da Polaroid. Ambos tinham algo em comum: o produto com design, a inovação acima de tudo. Simplicidade e marketing orgânico de um produto perfeito. Com as câmeras Polaroid foi assim e com a Apple dos iPhones foi assim. Depois da morte de Jobs isso parece ter se perdido pelo caminho.

Um analista da Gartner disse sobre o iPhone 11: que são as câmeras o principal motivo de alguém querer um smartphone. E que eles esperam mais inovação nesse aspecto”. Faz todo o sentido e isso explicaria o avanço das chinesas Huawei, Oppo e Xiaomi. Marcas que investem em zoom, inteligência artificial e fotografia no escuro. Elas fizeram avanços muito maiores do que a Apple nesse sentido nos últimos tempos.

Tim Cook, CEO da Apple, diz que 800 engenheiros estão 100% dedicados a melhorar a câmera do iPhone.

Não vamos discutir os diferenciais e super recursos fotográficos dos lançamentos da Apple. Algo comprovado pela afirmação de Julie Ask da Forrester: “os consumidores atualizam para melhores câmeras”. E é esse jogo de múltiplas lentes que fascina o consumidor. Mesmo sem ele saber direito para que serve. A fotografia é tão importante nesse processo que foram elas a novidade, enquanto as telas são as mesmas das versões anteriores.

O que achei mais interessante (e que me pareceu real) foi a constatação dos especialistas de que a quantidade de lentes no smartphone estão se transformando em elemento de valorização social. Olha minha câmera tripla do iPhone 11 Pro. Olha minha câmera quadrupla do Huawei. E por aí vai. Nesse sentido, o Google Pixel segue de forma surpreendente com um dos melhores smartphones do mundo para fotografar com só uma lente. “olha só meu smartphone incrível para clicar com uma só lente”.

Phil Schiller, Senior Vice President of Worldwide Marketing, talks about the new iPhone 11 Pro and Max, during an event to announce new products Tuesday, Sept. 10, 2019, in Cupertino, Calif. (AP Photo/Tony Avelar)

Não deixa de ser engraçado o fato de que múltiplas lentes só funcionam se a fotografia computacional entra em cena. E isso vale para todas as marcas líderes. O Google sabe bem disso. Aqui cabe a observação de que o marketing do Google e da Huawei é do tipo: somos melhores do que o iPhone. E isso ajudou a destroçar a reputação da maçã. Para o Google o zoom é importante, mas mais importante é a fotografia em condições muito escuras. É a aposta da marca inclusive nas campanhas.

O grande salto na fotografia com smartphones virá do aprendizado de máquina. A verdade é que já veio, o Deep Fusion da Apple foi só apresentado no evento de lançamento dos novos iPhone. Nem foi lançado junto com os aparelhos, pois estará disponível também para versões recentes da linha X. Na prática, o Deep Fusion combina fotos para gerar ou escolhe a melhor foto de uma sequência. Com uma rede neural e inteligência artificial combinando imagens com diferentes níveis de exposição, retirando ruído e otimizando a foto.

Para os analistas a Apple está investindo pesado em IA para aproveitar ao máximo a capacidade do poderoso sensor A13 Bionic.

Tudo muito bonito, mas vamos lembrar que a Huawei e a Samsung já anunciaram seus modelos de ponta com câmera tripla faz tempo. Relembrando ainda que a câmera tripla da Apple virou motivo de uma enxurrada de memes e que os competidores estão com estratégias pesadas também em preços mais atraentes. A vida da Apple não será fácil. A guerra dos smartphones não será tanto nas lentes (embora sejam importantes) mas sim na fotografia computacional.

Sobre a Apple estar se tornando uma fabricante de câmeras. Será mesmo? Para mim a Apple já é da fotografia (mesmo sem querer ser) faz tempo! Só em 2018 a Apple vendeu 218 milhões de câmeras no mundo todo. Enquanto isso, a indústria de câmeras (de todos os tipos) retomou o patamar de 1980 vendendo 20 milhões de câmeras digitais mundialmente (em 2010 foi o pico com 120 milhões de unidades vendidas). Em tempo: O IDC estima que quase 1.5 bilhões de smartphones de todas as marcas foram vendidos no mundo. O que só reforça a importância da fotografia nesse sentido. E confirma a sensação que temos em qualquer lugar que vamos: todo mundo tem uma câmera no bolso e quer sair fotografando tudo.