Apocalipse do Instagram

Familia de fazendeiros canadenses abriram campos de girassóis para visitas (e selfies). Tudo ia bem até viralizar...

por Revista FHOX Publicado há 2 meses atrás | por Leo Saldanha
Arte de Steve Cutts

Deu no New York Times, nos principais jornais e até na tevê canadense. Faz algumas semanas que uma fazenda de sementes de girassol em Hamilton (Ontario) decidiu abrir suas terras para os visitantes. Com 70 acres, a fazenda tem algo valioso para turistas e instagrammers, campos de girassol. Eles perceberam um potencial de faturar de quem quisesse visitar e clicar por lá. Hamilton fica perto de Toronto. Coisa de uma de carro. A fazenda pertence a família Bogle. Além das sementes também trabalham com aves. Tudo ia bem até que no dia 28 de julho apareceram 7 mil pessoas para visitar o local. Uma verdadeira horda de loucos por selfies e em busca de fotos com muitas curtidas nas redes sociais. O efeito viral ocorreu de repente.

Aqui o termo viralizar traz mais a definição de vírus destrutivo do que qualquer outro significado. Isso porque a fazenda não estava preparada para receber tantos turistas. Pior, eles começaram a destruir a plantação e as flores. O fato é que a família Bogle tinha experimentado uma experiência parecida em 2015 e naquele ano tudo foi bem. O problema é que talvez três anos antes, o Instagram não estava tão forte. Os caçadores de selfies não só pisotearam as plantas, como ainda tinha gente que levou até escada para conseguir um ângulo melhor. Deixaram lixo para trás e os vizinhos muito irritados. Mesmo contrariada, a vizinhança ajudou recebendo carros em seus terrenos. A estrada ficou lotada. Resultado: naquele dia com 7 mil visitantes eles tiveram que chamar a polícia.

Rip bogel seeds sorry those "an hour away from Toronto" articles ruined it

A post shared by Jade Drumm (@jadedrumm) on

A ideia de faturar com turistas parecia boa. Cobrando pouco menos de 10 dólares por adulto daria um bom faturamento nas duas semanas em que a fazenda estaria aberta aos visitantes. Com um estacionamento disponível para até 300 carros eles nem imaginavam que poderia chegar muito acima disso. O que a família não sabia é que vários sites destacaram a grande oportunidade que estava disponível. Então, uma semana antes da grande “invasão” eles receberam 150 pessoas. Pessoas educadas e em uma quantidade que eles poderiam controlar. Tinha gente de várias partes do mundo. Da Austrália, Estados Unidos e até de Dubai.

Pai e filho da família Bogle. Fecharam a fazenda para visitas para sempre depois da ocorrência. Foto de J.P. MOCZULSKI

A semana anterior até o fatídico dia foi tranquila e divertida. Eles disseram na matéria do NYT. O que aconteceu de forma orgânica foi a hashtag #bogleseeds. E o mais curioso é que a família nem acompanhava o Instagram e outras redes sociais. Bombou e em 7 dias o número de visitantes interessados explodiu. Eu olhei no Insta e vi que até agora eles estavam com 1200 menções em hashtag. Muita gente certamente nem colocou onde fez a foto. Do contrário o número seria de citações seria muito maior.

What's summer without friends? Or rather what's life without friends? 🤷

A post shared by PJ (@totem.paul) on

A força do Instagram fez com que no dia 28 de julho logo cedo tivesse fila de carros para entrar na fazenda. A família se assustou. Abriram o estacionamento e em uma hora as 300 vagas de carros foram tomadas. Às 14:30 daquele dia eles já tinham ligado para a polícia e coisa toda tinha saído de controle. Os policiais apareceram não só para controlar o trânsito, mas também para fechar a fazenda e mandar todo mundo embora. A família definiu tudo com uma frase marcante que repercutiu na mídia: isso aqui parecia um apocalipse zumbi.

O aviso no site. Com a polícia envolvida sem chance para novas fotografias.

Ultimamente são comuns matérias que mostram o impacto negativo do Instagram e das hashtags. Como assim? As pessoas veem lugares incríveis nas redes sociais e querem fotografar no mesmo ponto. E muitas vezes usando a mesma hashtag. Ou quem sabe combinando com a marcação do lugar físico. Qual o problema disso? Filas de pessoas em locais para clicar no exato “point” daquela foto incrível. O que muitas vezes pode ter impacto ambiental como já vem ocorrendo em parques e locais protegidos. Então, no fim o que vemos é um cenário de equilíbrio delicado. De um lado temos novas ferramentas incríveis para pesquisa, inspiração, etc. De outro, a possibilidade de gerar problemas só para ganhar curtidas e conseguir aquela foto “da hora”. Aliás, o assunto virou notícia também por conta de uma canadense que criou um Instagram só para mostrar como tudo anda muito igual. O Insta_repeat.

Logo, fica claro que não se tratam exatamente de zumbis. Ou melhor, talvez a frase mais adequada para definir o que ocorreu com a família Bogle seja Apocalipse do Instagram.

Leia também: quando uma hashtag ajuda a destruir a natureza

A família ainda está avaliando o estrago na fazenda. foto de J.P. MOCZULSKI

>> Quer conhecer a nova FHOX de graça? 

Se você tem uma matéria, um relato, uma coluna, um tutorial ou qualquer outro tipo de conteúdo e quer contribuir com o FHOX.com.br, nos envie! Nosso departamento de redação vai analisar e, se aprovado, será publicado e assinado por você, respeitando todas as regras do direito autoral. Colabore clicando aqui: Você na FHOX.