Por Felipe Tazzo
Felipe Tazzo é profissional de marketing, produtor executivo consultor de carreira artística desde 2005, e ainda escritor e segundo fotógrafo de Denise Maher. 

Aonde vão os fotógrafos de casamento?

Uma conversa com o texto do Fábio Rebouças, para o site da FHOX, sobre o mercado de fotografia de casamentos

por Revista FHOX Publicado há 3 meses atrás | por Felipe Tazzo

Neste fim de semana Fábio Rebouças, contribuindo para o site da FHOX, fez uma análise precisa e completa do que o mercado da fotografia de casamento está se tornando. Sem poupar críticas necessárias, analisou a movimentação dos profissionais renomados e já estabelecidos, os novos talentos e até os empreendedores de palco na nossa área.

Fábio não gastou uma silaba à toa sequer. Assim, escrever uma “coluna resposta” parece até grosseria. Espero que não seja recebida assim. A intenção aqui é dar um passo mais a frente no assunto e torcer por ainda mais uma colaboração. É um debate para todo mundo sair ganhando.

Então vamos ao gancho que eu entendo, esteja solto: após notar que os novos talentos se comportavam como parte da tribo, adotando métodos, propostas, resultados e até figurinos e jargões de quem desbravou o território, ele questiona quem serão os próximos grandes nomes.

Aí é que eu entro.

Volodymyr Shtun / Shutterstock

Talvez não hajam mais grandes nomes

Mas isso não é uma má notícia! Não é de hoje que o povo anda casando e também tem algumas tantas décadas que resolveram fotografar casamentos (quase tantas quanto a própria fotografia), então pode soar estranho que nosso mercado ainda esteja se ajustando.

Antes da fotografia digital, fotografia de casamento era outro bicho completamente diferente. Veja os álbuns de fotografia dos seus pais: 30, 40, 50 fotos no máximo, todo mundo enfileiradinho bem comportado. Afinal, quem é que ia se meter a fazer peripécias espontâneas na pista de dança com meia dúzia de rolos de negativos de 36 poses?

O fotógrafo moderno, com cinco cliques por segundo e cartão de 256 GB é uma prática de 10 anos atrás. No máximo 15.

Isso torna o mercado de fotografia de casamentos, do jeito que o conhecemos, muito recente. Como é típico do nosso século, tudo muda muito rápido. Mercados também. Especialmente aqueles fortemente baseados em tecnologia.

Vale aqui uma ressalva: não foi o equipamento que formatou o mercado. Foi a tecnologia junto com a demanda dos clientes por volume maior de fotos, junto com a popularidade das redes sociais, junto com o conhecimento técnico da fotografia amadora, junto com a ânsia da nova geração de trabalhar em atividades criativas, etc, etc, etc.

Dez anos atrás, o fotógrafo de flagras espontâneos com envolvimento emocional era um pioneiro em um mercado engessado. Quem tinha mais milhagem e mais técnica surfou nessa onda direitinho. Mas logo o que era pioneirismo tornou-se o padrão.

Vincent2004 / Shutterstock

 

Por sorte, nosso mercado não é o primeiro a passar por isso

Nem será o último. Basta ter um olhar mais atento para o que já rolou em águas passadas que podemos facilmente sacar o que vem vindo por aí. E – como tudo na vida – as mudanças serão intensas, mas no fim serão bem bacanas.

O que está acontecendo hoje com a gente é uma consolidação do mercado. No começo cada um corre para um lado e acaba recebendo resultados diversos. Mas a informação flui muito fácil, facilitando o aprendizado e todos tendem em direção às mesmas práticas. Consolida-se que esse mercado funciona assim e pronto.

É o que acontece hoje com as farmácias. É difícil encontrar uma que não pertença a alguma rede, como Drogasil, Onofre, DrogaRaia, Farmáxima, etc. Também é muito difícil notar qualquer diferença entre elas. O visual da loja, o uniforme do funcionário, o programa de fidelidade, a distribuição de remédios e os cosméticos chiques… tudo igual.

Outro mercado que travou dentro dos paradigmas é a barbearia. Aqueles lugares que só o seu avô frequentava, hoje estão recheados de atrativos sexy para o homem: visual retrô “pero no mucho”, cerveja artesanal, mesa de sinuca, PlayStation, toalha quente na cara e barba com navalha. É lógico que é bom estar finalmente nas mãos de um profissional que não está na pausa entre dois cortes femininos. Mas qual a diferença entre um desses playgrounds para meninos crescidos para o outro? Se você já viu um local desses por dentro, já viu todos.

Evgenyrychko / Shutterstock

 

Se você já está achando essa consolidação tediosa ou ridícula, saiba que sim, é isso mesmo. E isso por si só já seria motivo suficiente para você deletar todos os presets que baixou por aí ou recebeu dos workshops que frequentou. Porém o efeito mais nocivo não é esse. O grande problema é que em um mercado com tantas ofertas semelhantes, o melhor recurso para atrair negócios é o preço. E essa decisão vai estar na mão do cliente sempre.

E o cliente, sem dó nem piedade, vai abrir um leilão pelo menor preço. Como você vai decidir entre comprar na Drogasil ou na Droga Raia (que às vezes ficam uma do lado da outra)? E como uma noiva vai conseguir decidir entre contratar você ou outra pessoa? Na letra fria da lei, pelo menor preço.

Se você está pronto a argumentar que o cliente sempre vai procurar pela melhor qualidade, devolvo-lhe o argumento: o que é qualidade?

Eu e você podemos passar horas e mais horas discutindo isso. Os noivos não. O nosso olhar treinado, nosso contato com tantos outros fotógrafos, nossas tentativas e erros, as técnicas, tudo isso é muito interessante. Mas desaparece aos olhos dos noivos. Qualidade é o que o cliente percebe como qualidade. Todo o resto é lição de casa nossa.

E isso já está acontecendo, como o Fábio observou. Então, qual é a boa notícia nesse cenário tenebroso e apocalíptico?

Um mercado consolidado está mais do que pronto para a segmentação

Nem todo mundo se comporta da mesma maneira. Nem todo cliente tem as mesmas expectativas ou desejos. Entender a pluralidade dos grupos de pessoas e focar o seu negócio em um determinado grupo faz com que você se torne o especialista nele. Pensar em segmentos permite você oferecer serviços, atendimento e preços dedicados só àquele segmento.

Shampoo já foi tudo igual. Hoje tem pH neutro, baixo sódio, para negras, para barbas, com vitamina, sem derivados de petróleo, sem teste em animais, com todos os tipos de frutas, raízes e flores e até shampoo com baixos índices… de shampoo.

Na fotografia de casamentos a forma de pensar o trabalho (fazer amizade com o cliente, fotojornalismo, entregar mil fotos, coque samurai, alça de couro) não precisa ser abandonada porque não é impeditivo atender a um segmento específico.

Você já ouviu falar de mini-weddings, destination weddings, elopement weddings, que são famosos na gringa e estão se estabelecendo bem no Brasil. Mas e que tal o segmento LGBT? Ou ainda o segmento só L? Ou só T? Será que esses clientes não se sentiriam mais confortáveis com quem entende as dificuldades que passam? E cada uma das diferentes religiões? Conhecer os ritos e as particularidades de determinada religião pode fazer muita diferença no resultado para o cliente. Isso sem mencionar casamentos apenas diurnos (o sonho de muitos fotógrafos)? Ou casamentos na praia?

Quer ver uma ideia doida? Que tal se especializar em atender veganos? O veganismo ainda não é um segmento expressivo em volume. Mas quando for, nunca poderá ser atendido por quem usa alça de couro.

Uma segmentação de mercado elimina a guerra de preços, já que menos profissionais se concentram em cada área e o especialista tem um valor maior do que um generalista, por conta da sua bagagem.

Nesse aspecto, talvez não hajam mais grandes nomes porque poucos profissionais vão arrebanhar todos os casamentos. Possivelmente a gente venha a admirar um grande nome da fotografia de casamento dentro do budismo, outra grande nome da fotografia do casamento entre corintianos, outro dentro do casamento em área rural e sabe-se mais o que é possível inventar.

Encontre um segmento que tenha a ver com você, se dedique e agradeça todos os dias que você não é dono de farmácia.