Além do registro: Como o ato fotográfico se transforma em criações

por Revista FHOX Publicado há 1 mês atrás | por Sala de Fotografia

As mudanças e evoluções no percurso da fotografia influenciaram na função do ato fotográfico: de simplesmente registrar o real como um documento, ela passou a ser um meio de expressão, isto é, uma forma de mostrar o que se vê, registrar sem a preocupação de documentar, podendo exprimir sentimentos.

O espanhol Joan Fontcuberta, importante pensador da fotografia, alega que a foto foi praticamente substituída – ela não é mais linguagem, e passa a ser língua. Somos consumidores e produtores ao mesmo tempo, o “Homos Photograficos”. Agora, na pós-fotografia, se quebram esses vínculos com a realidade, e há uma transmutação de valores: a carcaça da fotografia se mantém, mas a sua alma se transforma. Ainda, para Fontcuberta, não se trata de produzir obras, mas de produzir sentido: esse é o papel do fotógrafo/artista.

Assim, ao fotografar um objeto, o fotógrafo atribui significados às imagens produzidas, pois suas escolhas estão associadas às referências de seu autor que, de alguma forma, se relaciona com o objeto a ser fotografado e ambos estabelecem uma inter-relação.

A construção do sentido ocorre a partir da decisão do fotógrafo na composição da imagem, que envolve o enquadramento, recortando um ponto de observação; a luz que viabiliza a captura da imagem com suas linhas, sombras e superfícies, dos detalhes da sombra, que dá volume e profundidade plástica à imagem, além do foco e profundidade de campo, definindo uma cena com maior intensidade e conteúdo.

Foto: Liliane Giordano – Sala da Fotografia

Esses elementos da composição permitem explorar a captação da imagem, que se faz por meio de uma organização intencional de linguagem, pressupondo que o fotógrafo quer comunicar algo através da imagem produzida. Segundo Donis Dondis, no livro “A sintaxe da linguagem visual”, as técnicas são os agentes do processo de comunicação visual. O conhecimento dessas técnicas criará uma audiência mais crítica e perspicaz para a leitura visual.

A forma como o fotógrafo vê o que está fotografando, a escolha do ângulo, dos temas e características mais evidentes nas imagens, envolve escolhas individuais. Além do objeto em questão, estaria sendo revelada a atitude do fotógrafo perante as imagens que produz. Transparecem seus sentimentos, emoções e ideologias. Para Boris Kossoy, um dos grandes estudiosos brasileiros da fotografia, diz que as imagens seriam detentoras de um imenso potencial de expressão pessoal. Em sua expressão e estética próprias, a imagem fotográfica informa sobre o mundo e a vida.

Dessa forma, pode-se dizer que a imagem fotográfica expressiva considera o fotógrafo, indivíduo que está por trás da criação, bem como sua bagagem, suas intenções frente ao objeto que pretende fotografar, pois ele é quem irá definir o que deseja expressar e como irá expressar. Ao fotografar trazemos sim todos os livros que lemos, os filmes que vimos, a música que ouvimos, as pessoas que amamos, ensina sabiamente o fotógrafo Ansel Adams.

Um aspecto interessante que merece ser abordado é que cada fotógrafo, de acordo com o seu amadurecimento na fotografia, define suas preferências para fotografar, estabelecendo uma identificação de autoria no resultado da sua imagem.

A partir do momento em que o sujeito olha e lê o mundo, ele transforma esse mundo. Como diz o historiador e teórico da fotografia André Rouillé: “A fotografia nunca registra sem transformar, sem construir, sem criar”. Por outro lado a fotografia pode ser um recorte daquilo que se quer mostrar, a partir de uma perspectiva definida pelo fotógrafo.

Por Sala de Fotografia

Liliane Giordano e Sabrina Didoné, fotógrafa e mestre em educação e jornalista, “um dia se encontraram sem querer e conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer” – quer dizer – conversaram muito sobre a Sala de Fotografia, aonde viriam a desenvolver muitos projetos juntas. Além de produzir muito conteúdo sobre o universo da fotografia, também vivem o mundo sobre o qual escrevem, inseridas nos processos fotográficos e de educação visual. Afinal, acompanham na escola de fotografia o desenvolvimento de alunos e de profissionais desde sua iniciação fotográfica aos mais avançados projetos de livros e exposições. Juntas, unem a trajetória acadêmica e poética de Liliane, com a dinâmica da escrita de Sabrina.