Família 3 semanas atrás

Conexão, Família e um Mar de Algodão

Conheça o trabalho documental de Juliana Pacheco, que viaja o país para registrar histórias repletas de naturalidade

por Revista FHOX

Usar a palavra encantadora para definir a fotografia de Juliana Pacheco, 32, talvez não seja suficiente. Seus registros são daqueles que conseguem trazer à tona memórias íntimas, mesmo não sendo você nas imagens. Talvez isso aconteça pela forma como a fotógrafa consegue nos transportar para dentro da cena. Filha de pai fotógrafo e artista plástico e mãe pianista, ela cresceu em meio ao mundo artístico, com partituras, filmes e negativos espalhados pela casa.

Mas, de fato, só pegou uma câmera profissional nas mãos aos 19 anos. Na época brincou com o equipamento e percebeu o mar de possibilidades que ele lhe trazia. Quando se deu conta da conexão que poderia criar com as famílias e o quanto poderia aprender com cada pessoa, foi um caminho sem volta. “Eu me tornei uma fotógrafa nesse momento”, diz.

Engana-se, porém, quem pensa que foi um trajeto fácil. Existia uma cobrança natural sobre qual direção seguir, como, onde e o que fotografar. Ela, que já navegou por diversas áreas dentro do campo fotográfico, define-se hoje como uma documentarista.

“Já fiz fotografia macro, newborn, estúdio, lifestyle e casamentos bem tradicionais. Mas foi depois de alguns anos que eu realmente me encontrei na fotografia documental”, conta. Hoje, quando lhe perguntam: ‘o que você fotografa?’, ela responde que não é o que, mas como. “Eu sou uma documentarista, uma intérprete, eu sou fotógrafa!”.

UM MAR DE ALGODÃO E A CONEXÃO COM AS FAMÍLIAS

Para Juliana, sua escolha pelos registros de família acabou sendo um processo natural, pois guarda muitas lembranças de sua infância. E o que sempre a impressionou foi a simplicidade e a forma despretensiosa de como tudo era feito pelo seu pai. Hoje em dia, isso se reflete em seu trabalho.

E foi assim que, em meados de 2017, o projeto Mar de Algodão nasceu. A fotógrafa queria um lugar onde pudesse colocar, sem medo, sua visão de mundo e das pessoas. O nome vem do amor em viajar, um Mar de Algodão foi sempre o que ela via da janela dos aviões em suas andanças mundo afora. Com seu trabalho, hoje ela viaja o Brasil todo.

Íntimas e, ao mesmo tempo, realistas, as fotografias que fazem parte do Mar de Algodão nos passam a sensação de estarmos em cena, ao lado das famílias

 

“Eu me lembro do primeiro ensaio que eu fiz exatamente do meu jeito, sem pensar em nada além do que eu, Juliana, gostaria de fazer. Peguei um amigo, a filha dele e fomos para uma estrada vazia. Ele é ciclista e conseguiu levar uma bicicleta junto, o que deu sentido para o lugar que estávamos e fortaleceu mais ainda a conexão entre eles, que não foram mais do que eles mesmos”, explica. “O dia começou com muito sol e depois choveu, como a pequena Maitê queria. Como eu queria. Aconteceu ali uma troca muito grande e uma entrega forte entre nós três. As fotos mostram isso muito claramente e foi um marco no Mar de Algodão”, relembra.

Juliana também conta que teve um retorno positivo muito grande sobre esse ensaio. Depois dele ela passou a se sentir mais segura para ousar em suas imagens, para se conhecer melhor e colocar cada vez mais sua personalidade e conseguir imagens íntimas e autênticas dentro das famílias.

Criar vínculo com as pessoas que serão fotografadas é fator determinante para o trabalho de Juliana. Seja por mensagem ou pessoalmente, ela conversa o máximo possível com elas, fala
sobre histórias de vida, datas, crenças e valores.

Mar de Algodão

“Tudo isso muda muito na hora que você está fotografando. Não é um formulário que alguém responde, é uma conversa, é interesse, é troca. Eu pergunto e falo muito sobre mim também. Quando eu chego na casa é como se fossemos velhos amigos e quando eu saio eu tenho amigos pra sempre”.

Ela é enfática ao dizer que hoje sua vida não se resume somente à fotografia ou ao equipamento que usa. Suas fotos rodam o mundo e vão parar em lugares pelos quais ela nunca imaginou chegar. Inclusive, ela relata que até já viu casais decidirem não mais se separar por se verem juntos, dentro da própria rotina, através das imagens. “Já vi despedidas de familiares, de escolas, de cidade, nascimentos e até mudança para uma casa nova. Tudo tem muito valor”, diz.

“Para mim, a fotografia é uma busca pela própria identidade. É através dela que conseguimos testemunhas de um fato, comprovando o que realmente aconteceu naquele instante. É na fotografia que conseguimos nos comunicar, onde temos milhares de interpretações para o mesmo acontecimento. Isso nos ajuda a entender o mundo de várias óticas diferentes. Seja como arte ou como recurso de registro. A fotografia é como perdurar para sempre o que queremos que fique”.