Natureza 3 semanas atrás

O lugar mais lindo do mundo

André Duarte conta como foi sua experiência na passagem pela cidade de Dover, na Inglaterra

por Revista FHOX

Texto e fotos por André Duarte

Esse talvez seja o tema mais perseguido por todos. A busca pelo lugar mais lindo sempre foi um grande desafio na vida de todos os viajantes. A praia mais bonita, a montanha mais imponente. Mas afinal, qual é de fato o lugar mais lindo do mundo?

Eu descobri, e acredito que muitos viajantes também já o fizeram. Mas as vezes, nem se deram conta disso. O que eu encontrei na verdade foi que essa é uma busca subjetiva e pessoal. Uma praia paradisíaca na Tailândia pode não ser tão interessante para você como uma vila rústica na Itália, ou uma aldeia de pescadores no Maranhão. O lugar mais lindo do mundo é o que une tudo aquilo que você mais gosta em um só local, e que faz com que você não sinta vontade de deixar aquela vista por nada, que te traz calma e paz.

Foi esse o lugar que descobri, situado a mais ou menos 125 km de Londres. Por diversas vezes pesquisei na internet locais interessantes na Inglaterra para colocar na minha “Wishlist”, os quais gostaria de visitar. Mas quando descobri os White Cliffs of Dover, (Paredões Brancos de Dover) na cidade litorânea de Dover, no Sudeste Britânico, eu sabia que tinha que ir até lá a qualquer custo.

A imagem das trilhas em um campo verde, no alto de um paredão que cai diretamente no Canal da Mancha me fascinou totalmente. A minha viagem para Londres já estava marcada quando descobri esse lugar, por isso pude facilmente encaixar no meu roteiro de 12 dias que tinha disponível. O único problema seria contar com um acerto da previsão do tempo e a visita a uma feira de fotografia que ocorreria na mesma data, a famosa Photokina. Após estudar profundamente o site da previsão do tempo local, consegui encaixar um dia na minha semana onde após dois dias consecutivos de chuva, o sol finalmente voltaria para iluminar minha jornada.

O meu primeiro plano seria ir de Londres para Dover de ônibus e pegar uma diária em uma casa ou hotel. Porém os planos mudaram e acabei ganhando a carona e companhia do meu sobrinho, que é praticamente britânico (vive há 12 anos na terra da rainha). Acabou sendo bem mais legal, pois ele também é um “viciado” por fotografia e aventuras como eu.

Saímos de Londres por volta das 7:30 da manhã. A viagem foi tranquila e ensolarada, e duas horas depois, foi possível ter a primeira e inesquecível visão do mar. Era o Canal da Mancha que saltava para nossa visão, preenchendo e inundando o horizonte de um azul-escuro.

Dover é uma cidade pequena, com menos de 40.000 habitantes e é a principal saída (ou entrada) para a França. Do alto do Paredão, é possível ver uma parte da praia do outro lado Canal da Mancha (English Channel), próxima a cidade francesa de Calais.

Com um estilo bem aconchegante, a cidade é guardada pelo grande Castelo de Dover, um dos mais bem conservados do mundo, datado do século XII. Foi por ele que nosso passeio começou. Simplesmente fantástico! É até meio clichê dizer que “parece que voltei no tempo”, mas não tem outra forma de dizer. Tudo muito bem conservado, as pedras, os ambientes, realmente parece que o tempo parou por ali.

O castelo é conhecido como a “Chave da Inglaterra” pois está em um ponto de “entrada” do país, e por isso, foram diversas as tentativas de conquista desse ponto pelos “inimigos” ao longo da história. Na Segunda Guerra Mundial, o castelo também mostrou sua relevância ao servir de base para os militares.

Fizemos um tour pelas galerias utilizadas na guerra que levavam a um hospital subterrâneo, tudo dentro do clima de guerra proporcionado pelos criadores da atração. Pelo caminho, o guia nos explicava toda a história dos túneis, e de fundo ouvíamos os sons de soldados correndo e bombas caindo acima de nossas cabeças. Para completar o clima, as luzes se acendiam e apagavam quando as “bombas” caiam e as paredes pareciam se chacoalhar junto também. Simplesmente sensacional! Mas não recomendado para quem sofre de claustrofobia.

Infelizmente não é permitido filmar ou fotografar nada durante a tour, então recomendo que coloquem em sua “wishlist” de viagens, pois vale muito a pena. Depois de visitar o castelo e desfrutar de um belo almoço por ali mesmo, demos início ao que seria o ponto alto da viagem, a trilha até o Farol (South Foreland Lighthouse). Essa trilha é feita pelo alto da colinas e fica dentro de um parque, onde é necessário pagar uma taxa simbólica, mas oferece estacionamento e da acesso a um restaurante e uma loja de souvernirs.

Era como se eu tivesse entrado pela foto que eu tinha visto no site, até a luz do sol era a mesma. Que alias era a luz perfeita em um dia perfeito. O contraste do azul do mar com o verde dos campos e o marrom da trilha que nos levava para o alto e para baixo. Tudo perfeitamente encaixado no cenário mais bonito que eu já vi. Ali, para mim, era definitivamente o lugar mais lindo do mundo.

Começamos a trilha e a cada passo uma foto. Após uns 10 minutos de caminhada conseguimos ter a foto do cartão postal, justamente onde se alinha a trilha com o visual do Paredão Branco de calcário despencando no mar azul, ali foi perfeito para colocar meu pequeno “dronezinho” em ação e conseguir um visual do alto mais impressionante ainda.

Mais alguns minutos de trilha e quando dei por conta estava sozinho, estasiado pela paisagem e pelas fotos. Meu sobrinho e a namorada estavam para trás, também concentrados na paisagem. Quando passei por um estreito caminho entre dois pequenos montes, um pequeno vale se abriu na minha frente e, ao olhar na direção do mar, que agora estava obstruído pelo pequeno monte que se elevava, notei o que parecia ser uma crina de cavalo atrás do monte.

Devagar, caminhei para chegar mais perto e então a cabeça de um cavalo marrom surge por cima do monte, me fazendo recuar um passo. Logo depois o cavalo aparece por completo, vindo na minha direção. Acredito que tenha sido uma das fotos mais bonitas que tirei, pois causou um jogo de contrastes de cor impressionante, com o azul-escuro do mar, azul-claro do céu, o marrom do cavalo com o verde da grama rala no chão.

Alguns minutos se passaram enquanto eu estava ajoelhado no chão tirando diversas fotos, quando mais dois cavalos surgiram. Um era marrom de crina longa como o primeiro, mas o outro, parecia um ancião, negro, e estático como se apreciasse o vento e a paisagem tanto quanto nós. Sem contar que era bem menor que os demais, o que só aumentou o meu fascínio pelo animal.

Continuamos pela trilha, com o Sol caindo e a “Golden Hour” chegando. A luz ia caindo através dos campos de trigo que se formavam ao nosso redor, deixava a paisagem cada vez mais dourada. Foram duas horas de trilha mais ou menos até chegarmos a Farol, que por sinal estava em reformas, mas isso não ofuscou a nossa aventura, pois como diz o ditado “o importante é o caminho”.

A luz estava perfeita, e pela primeira vez em toda viagem, eu simplesmente deixei a câmera de lado e sentei na grama, a beira do penhasco de calcário branco para apreciar a vista, pensar na vida e sentir o vento. Parecia que tudo havia conspirado ao meu favor: o dia perfeito, a luz perfeita e a paisagem perfeita.

Qualquer foto com qualquer equipamento ali, ficaria linda. Sentado, era possível ver alguns turistas andando e também o que pareciam ser moradores locais fazendo cooper. Fiquei pensando por alguns segundos como seria morar em um local como aquele, com uma vista daquelas?! Será que enjoaria depois de um tempo? Não sei, por vinte anos eu tive uma vista privilegiada da Serra da Cantareira em São Paulo e não enjoei, e até hoje tenho saudades. Então acredito que poderia conviver mais uns 20 anos com a vista dos “White Cliffs of Dover” sem problemas. Mas e você?! Já encontrou o seu Lugar mais lindo do mundo?