Autoral 2 semanas atrás

Humanae: brasileira cria projeto sobre a pluralidade e beleza das cores humanas

E ela fez dos tons da pele o centro de um de seus projetos mais ambiciosos, no qual já fotografou mais de 3.000 pessoas em 13 países. O projeto começou em 2012 e, segundo ela, não tem data para acabar

por Revista FHOX

A brasileira Angélica Dass gosta de afirmar que nasceu em uma família cheia de cores e pluralidades. Segundo ela, sua avó tem pele de porcelana e cabelo de algodão, já sua mãe tem um tom de canela com mel e seu pai, de chocolate amargo. “Sou como uma dessas barras com pouca porcentagem de cacau, mais doce”, brinca a carioca radicada em Madri há dez anos.

As cores nunca foram um problema em sua casa. Mas ela percebeu logo cedo que o mesmo não se aplicava da porta para fora. “O Brasil é um dos piores lugares do planeta para nascer negro. Há um racismo institucionalizado e escondido”, afirma.

Humanae
A brasileira Angélica Dass (reprodução Facebook)

E ela fez dos tons da pele o centro de um de seus projetos mais ambiciosos, o Humanae, no qual já fotografou mais de 3.000 pessoas em 13 países. O projeto começou em 2012 e, segundo ela, não tem data para acabar.

“Quero captar as nossas cores de verdade, no lugar de sermos etiquetados como branco, preto, amarelo, vermelho, associados a raças. É como um jogo para questionar nossos códigos”, diz ela, que registrou de ricos nos EUA a refugiados na Europa e pobres na Índia, passando por estudantes suíços e brasileiros que vivem em favelas.

Humanae
A pluralidade e a beleza das cores humanas registradas por Angélica em Humanae

Formada em belas-artes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Angélica se mudou para Madri após fazer um estágio em um museu espanhol e conhecer seu futuro marido, um físico “com pele de lagosta queimada ao sol”.

A brasileira teve a ideia de iniciar Humanae quando começou a ser questionada constantemente sobre qual seria a cor de seus filhos. Em um exercício pessoal, resolveu fotografar sua família e a ela mesma. A mãe de Angélica é descendente de índios e seu pai, negro, foi adotado por uma família de brancos no Rio.

Em seguida começou a retratar seus amigos, logo passando para desconhecidos. Em pouco tempo, estava sendo convidada para expor os resultados em museus e praças públicas do mundo.

“Uma das coisas mais bonitas que me aconteceu foi uma mulher de 60 anos, ao olhar as fotos que eu coloquei na porta de uma ONG no Rio. Ela dizia: ‘Tô entendendo o que você tá falando. É que, se cortar aqui na pele, vai ser tudo igual, vai ser tudo vermelho.”

O processo fotográfico de Humanae

Humanae

Segundo Angélica, o processo é simples. Ela monta um estúdio temporário e cada retratado passa 15 minutos com ela. As fotos seguem um padrão, com as pessoas sempre de frente, encarando a lente, diante de um fundo branco. Na sequência, a artista “tira” um pedacinho da cor do nariz e a usa para “pintar” o fundo. Por fim, é colocada sob a imagem o número da cor de referência –retirada da paleta industrial Pantone, espécie de Bíblia das cores.

Leia também: Projeto fotográfico abre portas para discussões raciais e conscientização 

“Toda vez que tiro uma foto, sinto que estou na frente de um terapeuta. Todas as frustrações, medos e solidão que senti viram amor.” Ela conta que, ao passar por países tão diferentes, percebeu que a discriminação racial tem um ponto em comum. “Infelizmente, o mais claro é o bom, e o mais escuro, o ruim.”

Entre os países mais “coloridos” pelos quais já passou, Angélica destaca o Brasil. “É um país muito especial”, diz.. “Não acho que seja um tema que as pessoas estejam muito dispostas a discutir. Acham que esse preconceito não existe, mas é uma coisa diária da qual sempre sou lembrada quando vou ao Brasil. Estou louca? Acho que não.”

Conheça mais sobre o projeto através de suas redes sociais: Facebook | Instagram