Paisagens 5 meses atrás

País de Gales pela lente de André Duarte

Fótógrafo relata sua jornada com belas imagens deste país da Europa

por Revista FHOX

O fotógrafo André Duarte escreveu sobre sua viagem para o País de Gales, que aconteceu no ano passado. No pacote, diversas fotos desse lugar pouco falado mas com diversas maravilhas naturais e construídas pelo homem.

Texto e fotos: André Duarte

O grande perigo da fotografia é que ela nos causa uma extrema dependência e nos faz querer ir sempre além. Você vai querer viajar o mundo inteiro e não contente vai ficar ansioso para saber quando haverá expedições em outros planetas só para garantir aquela foto perfeita de Marte ou Júpiter. Hoje eu quero relatar aqui uma dessas experiências que tive com Fotografia e Viagens, a travessia do País de Gales.

Cheguei em Londres no final de setembro de 2018 a fim de matar a saudade de parte da minha família que mora por lá. Não tinha um roteiro de viagem definido, a única certeza era de que queria ir ver de perto os famosos paredões brancos de Dover (litoral britânico). Também queria fazer uma trilha em algum lugar daquela ilha gigante chamada Reino Unido.

Porém, assim que me acomodei na casa da minha irmã, meu cunhado mencionou que gostaria de me levar para conhecer o País de Gales. Haviam lá as paisagens mais bonitas que ele já tinha visto. Fiquei bem entusiasmado e logo coloquei as baterias da câmera e do Drone para carregar.

André Duarte

O dia nasceu perfeito, céu azul (coisa rara por lá), uma temperatura muito agradável, o carro cheio e uma vontade gigantesca de explorar e tirar fotos. Olhando no mapa, meu sobrinho deu a ideia de passarmos por dentro do Parque Nacional da Snowdonia.  Parque criado em 1951 com mais de 2 mil quilômetros quadrados, fica um pouco acima do meio do país, e que prometia mostrar uma paisagem completamente diferente do que eu já tinha visto.

A capital Cardiff foi nossa primeira parada após umas 2 horas de viagem. Paramos apenas para um lanche. Após a comida demos uma volta rápida no quarteirão, passamos em frente da Prefeitura e do famoso Castelo de Cardiff, gigante e perfeitamente conservado. Fundado pelos Normandos em 1091 (com base em um antigo forte Romano) foi cenário de diversas batalhas, sendo tomado novamente pelos Galeses por volta do ano 1400. É um Castelo muito imponente, com uma muralha que circunda alguns quarteirões e é o principal ponto turístico da Cidade.

André Duarte
Nosso caminho era longo, ainda tínhamos por volta de 240 quilômetros para percorrer até o nosso destino. Iriamos até o norte do país para chegar na Cottage House Fron Goch, em Dolwyddelan. Essa Cottage House (como eles chamam “coisas do campo” ou que se referem a algo do interior) era onde iríamos passar a noite. Só poderíamos ter uma verdadeira experiência Galesa se passássemos a noite em uma casa típica.

Quanto mais subíamos em direção ao Parque da Snowdonia, os nomes das cidades e vilarejos se tornavam mais impronunciáveis. No País de Gales (Cymru) se fala tanto o Inglês como o idioma Cymraeg (Galês). A cidade de Cardiff tem seu nome em Galês Caerdydd, e ao longo do caminho fomos vendo os nomes diferentes nas placas Pen-y-garreg, Llanddewir Cwm, Llanafan-fechan entre outros. Quando entramos no parque, o verde ao nosso redor predominava. Montanhas e lagos cortavam a paisagem, pastos com Ovelhas branquinhas ficavam para trás e casas típicas da região, erguidas com pedras e madeira acrescentavam um pouco do cinza a paisagem.

Por um trecho tivemos a sensação de estar em um cenário do Senhor dos Anéis, pois passamos por uma mina de ferro (Pelo menos parecia, mas não havia placa indicando). A paisagem naquele trecho mudou drasticamente, pois até onde os olhos alcançavam só era possível ver rochas brilhantes em um tom cinza chumbo, e escavadas por máquinas. Com certeza valia a foto!

Chegamos na Cottage ao anoitecer, o clima já começava a mudar, as nuvens se apossaram devagar do céu azul e uma fina garoa molhou a pista. Ali teríamos uma verdadeira experiência Galesa. Era quase que uma cabana de campo, extremamente aconchegante, feita de pedra e madeira, com dois quartos, 3 camas bem fofas, um banheiro grande e uma acolhedora lareira no canto da sala, que apesar de não estar tão frio, acendemos apenas para completar o clima.

Confesso que foi bem estranha a sensação de imaginar que um dia estava sentado em meu sofá em São Paulo, e  60 horas depois estava em uma cama, no interior de um País completamente diferente, a mais de 12 mil quilômetros de casa, sem ter planejado. As 7:00 eu já estava de pé para acompanhar o amanhecer do dia que prometia ser ainda mais proveitoso do que o anterior. E apesar do terminar com chuva, o amanhecer foi lindo.

Em um dos folhetos que estavam na Cottage, vi que uma das atrações por ali eram algumas Alpacas (parentes das Lhamas tradicionais na Bolívia e Peru), sendo criadas e tratadas pelos donos do lugar, o que certamente nos rendeu dezenas de fotos. As Alpacas são animais com uma aparência muito engraçada, e extremamente curiosos. Até hoje não sabemos se Jacob, nome citado no livro da casa, era o nome da Alpaca ou do dono delas.

Logo após essa sessão de fotos, vi, no mesmo folheto, que havia uma trilha, criada a milhares de anos atrás pelos romanos. Subia pelas montanhas, e um pouco mais além existia também uma cachoeira chamada de Swallow Falls. Ali estaria a minha grande oportunidade de fazer a trilha que eu tanto queria. E sem pensar duas vezes, eu e o meu sobrinho Bruno, colocamos nossas mochilas, juntamos nosso material e seguimos rumo a essa trilha desconhecida.

Foi uma sensação que não posso descrever com palavras, estar fazendo um caminho que havia sido traçado a milhares de anos atrás, com pedras encaixadas na terra que resistiam por todo esse tempo. A paisagem ao redor era bem diferente do que eu estou acostumado a ver aqui no Brasil. Ali a trilha era através do caminho de pedras, com uma vegetação rasteira cor de ouro a nossa volta, e por alguns trechos, avermelhada em tom cobre.

As montanhas alternavam do marrom para o verde e alguns riachos por vezes cortavam o nosso caminho. Estava tudo indo perfeitamente bem até chegarmos à conclusão de que provavelmente aquele caminho não chegaria as Swallow Falls. Já havíamos subido mais de 3 quilômetros pela trilha e quando consultamos o GPS no celular que estava com uns 9 por cento de bateria, vimos que ainda faltava um bom pedaço, e que a nossa frente, surgia uma mata fechada de pinheiros. 

Andamos por mais algum tempo, as trilhas mudaram de direção apontando para 3 lados diferentes, o celular estava praticamente sem bateria, a fome começava a apertar, e a falta de um mapa em papel mesmo, e um norte para que pudéssemos chegar até a cachoeira, nos fez decidir a voltar pelo mesmo caminho e procurar uma nova forma de chegar ao nosso destino. Apesar de não dar em nada, a trilha foi extremamente interessante, consegui imagens sensacionais em foto e vídeo, e a experiência foi muito gratificante.

No dia seguinte, pegamos o carro junto com a minha irmã e meu cunhado, e após uns 20 minutos estávamos na cachoeira tão desejada. Ao longo do caminho vimos que nossa decisão de voltar pela trilha foi a mais correta, pois para chegar até as cachoeiras o caminho seria bem longo e complicado, o GPS não estava explicando muito bem o cenário.

Swallow falls valeu a pena, são 3 quedas que descem pelas encostas das montanhas do parque, dentro de uma área com boa estrutura para visitação e observação. Porém, se você passar desatento pela estrada pode acabar não vendo a entrada, pois as quedas ficam envoltas por árvores logo na beira da estrada. 

Assim que entramos no carro para voltar, meu cunhado disse que poderíamos fazer um pequeno desvio no caminho de volta, mas que valeria bem a pena. E fomos rumo ao desconhecido, tomando uma estrada diferente da que havíamos usado para chegar até aquele ponto, e uma estrada que nos levaria ao ponto alto da viagem e que eu jamais esperaria ver, o famoso castelo de Harlech. Pouco mais de uma hora depois, chegamos até o local.

Seu tamanho impressiona, as quatro torres gigantescas e praticamente intactas se erguem no alto da encosta, a pouco mais de um quilômetro da costa oeste do país, junto ao mar da Irlanda. No início da construção, como vi relatado nos diversos posteres durante a visita, o mar batia nas pedras do Castelo, e hoje, mais de 800 anos depois, o mar havia recuado mais de um quilômetro. Fizemos a visitação e tiramos algumas centenas de fotos, passando por todas as torres, os tuneis e áreas do Castelo. Construído pelo Rei Eduardo I da Inglaterra, a construção foi cercada durante sete anos durante a Guerra das Rosas e imortalizada na famosa canção “Men of Harlech”. 

Ainda pela costa do mar da Irlanda, chegamos a pequena cidade de Barmouth, e mais uma sensacional surpresa. Cheia de estilo, com construções típicas, a cidade litorânea era extremamente aconchegante, com lojas, restaurantes e sorveterias de portas abertas para os turistas. A maré baixa causava uma estranha porém bonita visão da praia, pois ao chegar nos deparamos com um mar de areia com dezenas de barcos encalhados, e a direita a mais ou menos 200 metros, um morro de areia tampava nossa visão do mar, mas deixava um fiapo de água passar, formando um estreito canal.

E agraciados com um belo pôr do sol a beira mar, nos despedimos desse País fantástico chamado Wales. Nossa viagem foi curta, porém intensa, recheada de ótimas e memoráveis experiências. E hoje, se alguém me perguntar se eu conheci o País de Gales, a resposta é… não!

Definitivamente não conheci, eu apenas passei, e esse é o grande barato de viajar. Eu sempre terei motivo para voltar lá, ver coisas novas, traçar caminhos por estradas diferentes. Posso viajar 10 vezes ao País de Gales e ter 10 viagens completamente diferentes. Eu vivo no Brasil desde que nasci e não conheço nem um terço desse país, e isso me faz pensar: Será que a vida não é muito curta para um mundo tão grande?