Eventos 3 anos atrás | Regina Sinibaldi

Juan Esteves e sua ‘descoberta’ dos Campos Elíseos

Livro “Campos Elíseos - história e imagens”, acompanhado de exposição, é uma ‘arqueologia’ das edificações do bairro paulistano

por Revista FHOX
Rep.

Faz uma década que o retratista Juan Esteves se veste de ‘arqueólogo’ em busca de edificações no centro de São Paulo que tragam traços, vestígios, do que a cidade foi um dia, para registrá-las. É desse garimpo que surge o livro “Campos Elíseos – história e imagens” cujo texto e coordenação editorial é de Antonio Carlos Suster Abdalla.

Esteves reúne uma centena de fotografias em preto e branco que passaram por um minucioso tratamento da imagem original com o objetivo de eliminar “ruídos temporais contemporâneos”, como ele diz. Entenda-se por “ruídos” as barreiras que impedem a visão dos prédios em sua beleza original. Assim, ele procura eliminar tudo o que não é original das construções que registra – fios, aparelhos de ar-condicionado, postes, conduítes, edificações modernas ao lado ou atrás do prédio documentado. O resultado é surpreendente, pois revela uma cidade que nunca veremos jamais, com todo o seu esforço de então para se tornar bela para seus habitantes e visitantes.

E nada mais propício de o livro ser lançado no Hall Teatro Porto Seguro, localizado no bairro de Campos Elíseos, em 17 de março. Em paralelo, 40 fotografias ficarão em exposição até 3 de junho para quem curte fotografia e arquitetura.

FHOX conversou com Esteves. Acompanhe trechos do bate-papo.

Quanto tempo demorou nessa empreitada?

Esteves – Creio que alguns anos. Explico. Comecei a retratar a arquitetura histórica já há anos… Em 2009, surgiu um projeto com a Atitude Brasil, que acabou virando a primeira edição do livro “Capital, São Paulo e seu patrimônio arquitetônico”, publicado em 2010. Em 2013 ele foi reeditado pela Secretaria de Cultura e pela Imprensa Oficial, com alguns melhoramentos. O livro pega o perímetro que não entrou a Luz, Bar a Funda, Higienópolis, Santa Cecília.

Tínhamos, Abdala e eu, ideia de um livro maior, englobando estes bairros que ficaram de fora do primeiro, então continuei fotografando… Não conseguimos realizar o patrocínio e a lei caducou. Ai o Abdalla conseguiu apresentar a ideia para a Porto Seguro de um livro somente de Campos Elíseos. Aí, foram acrescentados outros edifícios, mais específicos que eu ainda não havia fotografado que se juntaram aos prontos, cerca de 60% do livro. No total devo ter uns 400 prédios fotografados.

Em sua opinião seria possível esse projeto em cores? Além de sua fotografia em si, o preto e branco é o elemento mais primordial para o resultado final?

Esteves – Sim, o projeto é viável em cor, sobre outro ponto de vista. Existem vários, como de Leonardo Finotti e Iatã Cannabrava. O meu ponto de vista é sempre da pessoa que anda na rua; removo todos os ruídos que não estão no prédio original (fios, postes, aparelhos de ar-condicionado, conduítes, pichações e prédios distoantes ao lado). O preto e branco aqui é uma linguagem autoral, mas essencial para o resultado, pois muitos desses prédios estão com cores que não são originais e assim equalizo a questão. Mas há características tonais utilizadas por mim em todos meus livros. inclusive os de retratos. Na verdade, não chamo isso de fotografia de arquitetura, pois os prédios nem sempre são completos, é um livro de retratos.

O senhor mostrou o projeto para algum arquiteto para saber do impacto de redescobrir essas edificações?

Esteves – Sou filho, neto e bisneto de arquitetos. Estive na faculdade de arquitetura antes de ir para a de jornalismo, tenho amigos arquitetos, fui casado com duas arquitetas e retratei grandes arquitetos, além de ter uma vasta literatura sobre o tema na minha biblioteca. Conversei muito sobre o assunto com eles. O efeito que esse livro causa, em função da remoção dos ruídos são: a pessoa passa a “enxergar” os prédios, pois eles não são vistos por causa dos fios. E há uma espécie de paradoxo, pois ao mesmo tempo que você de certa forma rejuvenesce o mesmo, ele fica mais antigo. Voltamos ao tempo de sua origem…

 

Livro: “Campos Elíseos – história e imagens”

Fotografias: Juan Esteves

Coordenação editorial e texto de apresentação: Antonio Carlos Suster Abdalla

Patrocínio: Porto Seguro

Produção: Cult Arte e Comunicação

Nº de páginas: 224

Formato: 30 cm x 27 cm

ISBN: 978-85-65706-07-0

Fotos: Juan Esteves
Cruzamento das avenidas São João e Duque de Caxias
Edifício Barão de Limeira
Edifício Racy
Palácio dos Campos Elíseos
Alameda Eduardo Prado, 641