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Ensaio de Rodrigo Zeferino, vencedor do Prêmio FCW de Arte 2016, terá exposição no Festival Foto em Pauta, em Tiradentes

O título do último trabalho desenvolvido por Rodrigo Zeferino é uma clara referência à mais célebre obra de George Orwell. Na sociedade descrita pelo autor inglês em “1984”, todos os cidadãos estão sob constante vigilância. Mesmo dentro de suas casas, eles assistem e são assistidos por suas indesligáveis teletelas.

Experimente a sensação de circular por Ipatinga(MG), cidade natal do fotógrafo e artista visual Rodrigo Zeferino. É basicamente disso que se trata o ensaio “O Grande Vizinho”, vencedor do Prêmio FCW de Arte 2016 e que terá sua primeira exposição durante o Foto em Pauta – Festival de Fotografia de Tiradentes 2018, que acontece entre os dias 7 e 11 de março na cidade histórica mineira.

 

Big Brother

Fundada no icônico ano de 1964, a cidade surge para abrigar uma usina siderúrgica, então estatal, que já estava funcionando na ocasião da emancipação do município. O curioso é que a cidade é construída em torno da planta, circulando todo o seu perímetro. “As torres, chaminés e outras estruturas da usina são avistadas de qualquer ponto da cidade original, a usina está sempre presente na paisagem”, conta Zeferino, citando o slogan de propaganda do Estado na história de Orwell: “Big Brother is watching you”.

No idioma inglês, a frase pode ser interpretada de duas formas: “o Grande Irmão zela por ti”, ou “o Grande Irmão está te observando”. Pois a relação entre comunidade e empresa sempre seguiu uma lógica semelhante, principalmente no período anterior à sua privatização – foi a primeira estatal a ter seu capital aberto no governo FHC. É uma espécie de paternalismo: sustenta, mas controla.

 

Militarismo e disciplina

Caso sui generis na história da arquitetura modernista brasileira, Ipatingase desenvolve dentro da formalidade que um regime militar e uma disciplina industrial exigem. Assim, ao longo do tempo seus habitantes desenvolvem certa indiferença a essa onipresença de chaminés e altos-fornos fumegantes no skyline ipatinguense.

“Apesar da repercussão positiva desse trabalho, o que me tocou mais foi receber o feedback de muitos moradores da cidade que se sentiram sensibilizados pelas imagens e confessaram ter mudado profundamente a forma de olhar a paisagem local”, conta Zeferino.

 

Figurantes

A população tem papel determinante no trabalho do fotógrafo. Na construção do ensaio, ele teve que se submeter à solicitude de moradores e proprietários de estabelecimentos que permitiram certa invasão de sua privacidade. Para evidenciar a condição de proximidade entre cotidiano social e atividade siderúrgica, Zeferino posicionava no primeiro plano da imagem as janelas e sacadas das edificações – situadas num raio de dois quilômetos da indústria. “Requisito a participação de figurantes em cena, em horários rígidos – nas horas mais escuras – além de exigir que fiquem imóveis para que resistam o mais nitidamente possível à longa exposição.”

Essa escolha por fotografar à noite traz as motivações pessoais de quem cresceu ouvindo o mito do “monstro noturno”, lenda urbana segundo a qual, enquanto a cidade dorme, a fábrica lança na atmosfera quantidades multiplicadas de resíduos – uma suposta “tramoia” estimulada pela suposição de que menos gente estaria observando nesses momentos.

Ainda viva no imaginário popular, a quimera do “céu escarlate”, de acordo com o fotógrafo que há décadas observa o fenômeno, é na verdade fruto da ilusão óptica causada pela refração e reflexão das luzes – lâmpadas de vapor de mercúrio – que iluminam ambas, usina e cidade, gerando uma aura de tons quentes sobre o perímetro urbano, fundindo fumaça, vapor e nuvens. “É notório que, quanto maior a umidade do ar e mais baixas estiverem as nuvens, mais este fenômeno é perceptível”, diz.

A mostra em Tiradentes acontece na galeria Thi Rohrmann, onde Zeferino vai expor dez imagens em tamanhos que variam de 1,20 m a 1,60 m de comprimento.