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100 anos de Fotografia Leica na Photo España

Christer Strömholm, Nana, Place Blanche, Paris, 1961
Christer Strömholm, Nana, Place Blanche, Paris, 1961
[/media-credit] Christer Strömholm, Nana, Place Blanche, Paris, 1961

A Leica está comemorando 100 anos de uma história que todo fotógrafo tem obrigação de conhecer. Como parte das festividades há uma exposição itinerante que faz parte da Photo España, em Madri, até 10 de outubro de 2017.

[media-credit name=”esquerda: divulgação; direita: wikicommons” align=”aligncenter” width=”600″]leicas_14_25[/media-credit]

Em 1914 o engenheiro Oskar Barnack (1879-1936) produziu o primeiro modelo operacional da Leica (acima/esquerda), conhecido como Modelo Ur. Mas ela só seria lançada comercialmente em 1925 com o modelo Leica I (acima/direita).

Ainda no início do século XX a maioria das fotografias eram impressas por contato e tinham, portanto, o mesmo tamanho dos negativos. Isso acontecia pois os papéis fotográficos precisavam de muita luz, geralmente até UV, luz do sol, para que pudessem ser impressos. Com o crescimento dos papéis de brometo de prata, mais sensíveis à luz, foi possível introduzir o ampliador, aparelho que projeta uma imagem ampliada do negativo, utilizando na época luz de gás ou elétrica. Foi isso que possibilitou a grande sacada de Oskar Barnack.

Ele concebeu uma máquina fotográfica que para a época era uma miniatura, hoje ironicamente chamamos o tamanho de Full Frame. Ela teria uma óptica excepcional e seria destinada a ter suas fotos impressas por ampliação. Mas como uma indústria de microscópios, que era a Ernest Leitz onde Oskar trabalhava, faria para lançar um novo formato de filmes em pequenos rolos, fora do padrão da época?

Bem, aí é que ele foi muito inteligente e resolveu aproveitar os filmes em rolo utilizados no cinema. O formato existia desde os anos 1890, fora introduzido por Thomas Alva Edison com seu projetor Kinetoscope, e rapidamente tornou-se um padrão dos dois lados do Atlântico (coisa rara).

[media-credit name=”esquerda: cortesia da Adakin Productions; direita: wikicommons” align=”aligncenter” width=”600″]35mm_cinema_fotofrafia[/media-credit]

A largura é a mesma desde aqueles tempos até hoje, precisos 34.98 ±0.03 mm (1.377 ±0.001 polegadas). A diferença principal é que enquanto que o filme, que ficou conhecido como 35 mm, no cinema corre na vertical e tem um quadro menor (foto acima à esquerda), na Leica de Oskar Barnack ele corre na horizontal e possibilita um quadro bem maior, 24 x 36 mm (foto acima à direita). Ficou conhecido na fotografia como filme 135 quando a Kodak, em 1934, lançou o cartucho para ser carregado em luz do dia e que existe até hoje.

O que a Leica significou para a fotografia? Liberdade de movimentos, rapidez na ação de fotografar e qualidade no resultado final. Toda uma nova estética se configurou a partir daí. A Leica conseguiu fazer do gesto fotográfico uma extensão do próprio olhar. Existiam câmeras “pequenas” e populares como as Brownies da Kodak (abaixo à esquerda), mas elas guardavam o conceito do fotógrafo olhar para baixo e não para a cena. Tinham de fato um visor muito pequeno e ruim. Era mais para apontar do que propriamente compor uma foto. Além disso as lentes eram simples demais, velocidade fixa, dois diafragmas apenas, enfim, uma câmera frustrante para quem quisesse se dedicar a uma fotografia mais elaborada.

Brownies e Retina 141 da Kodak - da coleção do autor
Brownies e Retina 141 da Kodak – da coleção do autor

Logo depois da Leica vieram outras, também para filme 35 mm, como a excelente série de Retinas da Kodak, acima à direita um modelo de 1937/39, mas o obturador de íris não se armava com o avanço do filme, ela ainda usava fole, que na Leica foi substituído pela objetiva colapsável. Esses entre outros conceitos ultrapassados deixaram as Leicas tomar uma dianteira enorme como uma das grandes câmeras do século XX.

Sua supremacia absoluta no formato talvez tenha sido na década de 50 quando as Leicas III f foram lançadas. Depois disso, a entrada das monoreflexes, sobretudo as japonesas, com o acoplamento nato entre visor e objetiva tirou muito da preferência não apenas da Leica, mas de boa parte do uso de câmeras de visor de uma maneira geral.

Leica III f - 1 a 1/1000 s, com lente Summitar 5 cm f/2 - da coleção do autor
Leica III f – 1 a 1/1000 s, com lente Summitar 5 cm f/2 – da coleção do autor
"Zurich 1932", de Anton Stankowski (1906-1998)
[/media-credit] “Zurich 1932”, de Anton Stankowski (1906-1998)

Mas desde os primeiros anos e ainda por muitas décadas, fotógrafos de todo o mundo responderam maravilhosamente bem às possibilidades que a nova câmera abriu para eles. Exploraram tudo que o novo formato, a praticidade e a qualidade das Leicas permitia. Uma imagem como esta acima, de  Anton Stankowski (1906-1998), realizada em Zurich em 1932 seria praticamente impossível sem um visor direto ou uma câmara de grande formato (as fotografias apresentadas daqui em diante foram realizadas pelo autor diretamente na exposição “Com os olhos bem abertos – 100 anos de fotografia Leica” em Madri).

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São incontáveis as imagens que fizeram história e que foram realizadas com Leicas. Quem não se lembra da menina correndo do gás de napalm na guerra do Vietnã? Quanto que essa imagem não foi importante para nossa compreensão do que de fato se passava naquele canto do mundo? Quanto que ela não deu força para os movimentos pacifistas e para o próprio fim da guerra? Realizada por Nick Ut (1951) em Kim Phuc, 1972.

Lembrança obrigatória quando se fala em Leica é a figura monumental de Henri Cartier-Bresson (três primeiras fotos abaixo). Sua postura de flâneur, perambulando pelo mundo em busca da imagem perfeita, sua marca registrada do “momento decisivo”, encontraram caminho e expressão através das funcionalidades e confiabilidade das Leica.

leica_100_years_general_view_02

Mas a exposição é enorme, além das fotografias conta com vídeos, exemplares de câmeras, acessórios, documentos da Ernst Leitz e publicações. Seria impossível registrar aqui a riqueza do que foi reunido para essa merecida comemoração. Vamos torcer para que na sua itinerância, em algum momento, passe pelo Brasil. Uma boa opção para quem tiver interesse em saber mais é o catálogo oficial. Esgotou-se quase que instantaneamente em Madri, mas é possível ser encontrado on-line e com certeza futuramente será uma dessas preciosidades de colecionador.

Texto: Wagner Lungov, editor do site apenasimagens.com